Demografia no sudeste asiático

Em Outubro do ano passado, a The Economist publicou um artigo com o título: “Os países pobres da Ásia enfrentam uma crise de envelhecimento”.  Na verdade, são duas questões um tanto distintas. Uma é explicada pelos nascimentos. Países como a Tailândia e Singapura tiveram uma vantagem inicial na globalização e na urbanização, que em todo o lado tende a levar a taxas de fertilidade mais baixas. A taxa de fertilidade da Tailândia caiu abaixo de 2,0 (a taxa de reprodução) em 1993, e o Vietname chegou a esse nível em 2005. Singapura tem agora a terceira taxa de fertilidade mais baixa do mundo, de acordo com a World Population Review.

Todas as nações da região estão registando uma redução da força de trabalho e o aumento da expectativa de vida. No seu conjunto, o Sudeste Asiático estará “envelhecido” em 2042, o que significa que mais de 14% da sua população terá mais de 65 anos. Mas nem toda a região chegará a esse ponto ao mesmo tempo. Digamos que haja quatro lotes. Os primeiros são aqueles que já possuem sociedades “envelhecidas”. A Tailândia ultrapassou essa marca em 2020 e Singapura no ano seguinte. Em seguida estão aqueles que envelhecerão na década de 2030: Vietnã em 2034 e Brunei em 2037. A proporção da população com 80 anos ou mais deverá crescer mais de seis vezes no Brunei.

Os terceiros estão na década de 2040: Malásia em 2042 e Indonésia em 2045. O último grupo são os estados jovens: Mianmar terá uma sociedade “envelhecida”. em 2050; Camboja em 2052; Laos em 2059; e as Filipinas em 2061. Todos os estados do Sudeste Asiático verão a sua população com mais de 65 anos duplicar ou triplicar nas próximas décadas. A OCDE qualifica um país como “sociedade envelhecida” se a percentagem de pessoas com 65 anos ou mais estiver entre 7% e 14% da população total, e como “sociedade super envelhecida” se esta percentagem for de 21% ou mais. Segundo a ONU, o número de pessoas com 65 anos ou mais em todo o mundo mais do que duplique, passando de 761 milhões em 2021 para 1,6 bi em 2050. O número de pessoas com 80 anos ou mais crescerá ainda mais rapidamente. Em 2021, 1 em cada 10 pessoas em todo o mundo tinha 65 anos ou mais. Em 2050, prevê-se que esta faixa etária represente 1 em cada 6 pessoas a nível mundial.

Em 2035, o Laos, as Filipinas, Mianmar e Timor-Leste serão provavelmente os únicos países do Sudeste Asiático com uma taxa de fertilidade superior a 2,0. Na verdade, os retardatários da globalização, como o Laos e Mianmar, não cairão abaixo da taxa de 2,0 até 2041 e 2031, respetivamente.  A outra questão é explicada pela expectativa de vida. Em 1990, o Laosiano vivia em média apenas 53 anos; agora são 69. Em 1990, o malaio médio poderia esperar 70 anos , agora chegam a 77.

Em Singapura, a percentagem de pessoas com mais de 60 anos na sociedade ultrapassou a percentagem de menores de 14 anos por volta de 2010. A Tailândia chegou lá por volta de 2015. O Vietname chegará lá em 2035. A Malásia fará isso em 2040, a Indonésia por volta de 2045, Mianmar em 2050. o resto experimentará isso em algum momento da segunda metade deste século. As Filipinas serão as últimas.

Existem cálculos que colocam 25% da população com mais de 65 anos em 2100. Alguns países que já apresentam esses números elevados são: Japão (30%), Itália (24%) e Finlândia (23%). Atualmente, cerca de 8% da população da América Latina tem 65 anos ou mais, ainda bem abaixo dos 18% da Europa. Em 2050, contudo, este número deverá duplicar para 17,5% e ultrapassar os 30% até ao final do século. Esses dados são destacados no Relatório de Economia e Desenvolvimento (EDR) 2020 elaborado pelo CAF – banco de desenvolvimento da América Latina

 

Tailândia

 

A Tailândia levou apenas 19 anos (de 2002 a 2021) para que a percentagem da sua população com 65 anos ou mais aumentasse de 7% para 14%, os pontos em que os economistas dizem que definem quando uma sociedade se torna “envelhecida”. As pessoas com mais de 65 anos representarão quase um quinto da sua população em 2030 e um terço em 2050 Como salientou o The Economist, o mesmo processo levou 24 anos ao Japão, aos Estados Unidos 72 e à França 115. Em 2021, quando a Tailândia se tornou uma sociedade “envelhecida”, o PIB per capita era de apenas 7.000 dólares. Quando o Japão “envelheceu” em 1994, a sua riqueza média era cinco vezes superior, o caso mais complicado deve ser o tailandês.

A previsão é que a força de trabalho da Tailândia diminua em quase 10 milhões de pessoas entre agora e 2050 (ou seja, uma perda de cerca de um quinto da sua força de trabalho atual). Em comparação, a força de trabalho do Vietnã irá contrair apenas cerca de 200.000 pessoas devido ao seu número considerável de pessoas atualmente com menos de 15 anos (cerca de 22% da população, em comparação com apenas 14% na Tailândia).  A Tailândia é acolhedora para receber mao de obra estrangeira, mas é muito seletiva em termos de etnia. Atualmente, quase todos os trabalhadores migrantes na Tailândia são do Laos, do Camboja ou de Mianmar (ou seja, de culturas semelhantes).

Portanto, é improvável que Banguecoque permita que 10 milhões de migrantes africanos, árabes ou do sul da Ásia nas próximas décadas, número estimado que o país precisará para compensar a redução da sua força de trabalho.  E com o agravante que esses países não verão aumentos massivos no seu próprio número de trabalhadores: o Laos adicionará apenas 2 milhões de pessoas à sua força de trabalho entre agora e 2050; Mianmar, menos de 3 milhões; Camboja cerca de 2,2 milhões. Como tal, a Tailândia poderá ter de fazer uma pesquisa mais ampla (e de culturas menos semelhantes) se quiser adicionar 10 milhões de migrantes à sua força de trabalho nas próximas décadas

O que isto causa à sociedade relativamente homogénea e ao nacionalismo de base étnica da Tailândia é uma incógnita, mas pode-se imaginar que será politicamente chocante Singapura Singapura deverá perder cerca de um quarto da sua população em idade ativa até 2050, mas isto não é tão terrível como na Tailândia, uma vez que é um país acolhedor para os migrantes e já possui sua estrutura econômica voltada para o uso dessa mão de obra externa e sem grande preocupações étnicas.

Laos, Camboja e Mianmar

Além disso, nem tudo são boas notícias para os países com uma força de trabalho crescente, como o Laos. Um impacto provável da diminuição da população em idade ativa na Tailândia é o aumento da migração do Laos, do Camboja e de Mianmar, o que enfraquecerá a sua própria força de trabalho, especialmente os mais instruídos e qualificados.  O “dividendo demográfico” que têm de uma força de trabalho crescente, especialmente quando a maior parte do resto do mundo enfrenta um número cada vez menor de trabalhadores,  a força de trabalho do Camboja crescerá cerca de 2 milhões, a da Malásia e Mianmar cerca de 3 milhões e a da Indonésia crescerá uns colossais 18 milhões (cerca de um décimo da sua população).

Vietnã

O Vietnã não sofrerá um colapso tão acentuado na sua força de trabalho como a Tailândia, mas começou a partir de uma base mais pobre. Se o PIB per capita de Hanoi duplicar durante a próxima década, como fez na anterior (entre 2011 e 2021) seria apenas ligeiramente superior ao atual da Tailândia.  Mais claramente, se o PIB per capita do Vietnã triplicar, só estaria ao nível da riqueza média da Malásia atual. E a Malásia só se tornará uma sociedade “envelhecida” quase uma década depois do Vietname, o que lhe dará um impulso demográfico extra de 10 anos. No Vietname, os reformados passarão de 10% para 20% da população.  De acordo com o Banco Mundial, “os países com índices de dependência de idosos iguais ao nível projetado para o Vietnã em 2035 gastam normalmente 8-9 % do PIB em pensões públicas, bem acima dos 2, 3 que o país gastou na última década”.

 Filipinas

Em termos reais, o número de jovens só crescerá até 2050 em todo o sudeste asiático nas Filipinas (de 34,7 milhões para 36,4 milhões), embora, em percentagem da população, caia de cerca de 30% para 23%.  No outro extremo do espectro, a força de trabalho das Filipinas crescerá em 27,5 milhões entre agora e 2050.

Reflexão politico-social

Há observações que apontam que populações idosas em países em desenvolvimento “aumenta os gastos públicos na Defesa, pois a ideia de nacionalismo e a preferência política pela Defesa tornam-se críticas para os eleitores idosos. , o que se reflete num aumento dos gastos no setor bélico na medida em que envelhecem. Por outras palavras, os idosos apoiam mais o status quo. Um inquérito do Pew Research Center do ano passado concluiu que, no Japão e na Coreia do Sul, os adultos mais velhos apoiam mais os sistemas autoritários do que os mais jovens. Para complicar o quadro, contudo, um estudo realizado em 93 países em todo o mundo entre 1994 e 2014 concluiu que “o apoio à democracia aumenta com a idade, mas diminui com uma maior proximidade da morte. Assim, os indivíduos que antecipam uma expectativa de vida mais longa estão mais inclinados a apoiar a democracia.”

Em 2020, após ondas de protestos antimilitares juvenis na Tailândia, o país que envelhece mais rapidamente no Sudeste Asiático, depois de Singapura. “Observou-se um número maior de jovens adultos e jovens do que os movimentos de protesto anteriores”. Há uma tendências também de que ter menos filhos liberte tempo para que os jovens adultos sem filhos se envolvam em ações políticas. Na verdade, menos crianças significam menos responsabilidades para os jovens adultos. Isso poderia torná-los menos inibidos de assumir riscos, tais como participar em protestos políticos, apesar do risco de prisão.  No entanto, com um número crescente de jovens adultos que, em média, não terão nenhum ou menos dependentes (filhos) e são cada vez menos dependentes para cuidar dos seus pais aposentados, isso também poderá significar que há mais possibilidades de agitação política.  Assim como é precipitado dizer que com mais idosos menor será a taxa de desemprego dos jovens e que irá expandir as oportunidades para mulheres e trabalhadores estrangeiros, pois esse tipo de imigração enfrenta barreiras e inflama movimentos nacionalistas por todo o mundo.

É difícil provar uma relação de causalidade entre a demografia e qualquer resultado específico. Mas é alimento para reflexão. Como por exemplo, presumir que com menos crianças, a educação no futuro será superior por haver um maior investimento por pessoa. Os sistemas de saúde,  a maioria deles com uma infinidade de problemas, terão de ser construídos para lidar com milhões de pacientes idosos. Os governos terão de se tornar mais intervencionistas, competentes e provavelmente ficarão sob crescente pressão pública se forem vistos como incapazes de cuidar dos idosos. Na verdade, este é um problema com o qual a maioria dos governos do Sudeste Asiático ainda não teve de lidar. Imagina-se que isso se tornaria uma questão politicamente mais combustível no Sudeste Asiático do que, digamos, na Europa. Apenas 40% dos vietnamitas com mais de 60 anos estão cobertos por sistemas de proteção social, e esta é uma percentagem elevada segundo os padrões regionais. O número é de cerca de 6% no Laos e 14% em Mianmar. A Tailândia lidera com quase 90%.A implicação disto é que os estados terão de desenvolver rapidamente os seus regimes de pensões e reformas.

Conclusão

Deixei a África de fora do início propositalmente, o continente é o único com bônus demográfico superior ao do sudeste asiático, ainda que tente separar em outros recortes subcontinentais. Em 2050, a população total deve ser em torno de 2,485.14, segundo o site Statista, e segundo o NIA – National Institute of Aging, 235,1 milhões deles terão mais de 65 anos, ou seja, pouco mais de 10%. O que isso quer dizer? Quer dizer que o sudeste asiático terá uma infinidade de exemplos para tomar para lidar com essa questão, tanto de países ricos como dos mais próximos de suas realidades econômicas e sociais.Portanto, as matérias, como a do The Economist são alarmistas, claro que há um problema demográfico para ser estudado, porém, não é nada diferente do que todo o mundo também está passando e passará.

Talvez isso seja fruto do ineditismo da história humana, em que a maior parte está nas cidades e dentro de seu ecossistema, em que filho se torna um custo, e não um ativo, como sempre foi a vida no campo. Mas também, quem garante que com essa escassez de produção no campo, não haja o movimento inverso? A teoria diz ser praticamente impossível enriquecer depois de envelhecer, afinal, quando diversas nações romperam a chamada fronteira da renda média, nenhuma estava envelhecida. Mas quem garante que dentro desse futuro desconhecido e com o avanço incomparável da tecnologia, essa tese não vire letra morta dentro da academia como tantas outras não se tornaram?

 

Referências

 

https://www.economist.com/leaders/2023/10/12/large-parts-of-asia-are-getting-old-before-they-get-rich

https://thediplomat.com/2024/03/what-southeast-asias-aging-populations-could-mean-politically/

https://thediplomat.com/2024/03/what-do-we-mean-when-we-talk-about-southeast-asias-demographics-crisis/

 

 

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