O Diálogo de Shangri-la
Lançado em 2002, o diálogo de Shangri-la é a principal cúpula de defesa da Ásia. É uma reunião única em que os ministros debatem os desafios de segurança mais urgentes da região, participam de importantes conversas bilaterais e apresentam novas abordagens juntos, segundo consta no site oficial da instituição.
A conferência foi batizada em homenagem ao hotel de Cingapura em que é realizada, é organizada pelo principal think tank de estudos estratégicos globais com sede em Londres, o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS) e aconteceu agora nos dias 10, 11 e 12 junho de 2022.
É uma plataforma única para o debate entre ministros do governo e altos funcionários, bem como líderes empresariais e especialistas em segurança sobre os desafios de segurança em desenvolvimento do continente, apresenta importantes oportunidades para discussões bilaterais entre as delegações.
A edição deste fim de semana passado contou com a participação de quase 600 delegados de 59 países, como os chefes de defesa de Estados Unidos, China, Austrália, Japão, Coreia do Sul, França, Fiji e Associação das Nações do Sudeste Asiático
Temas
Os riscos de corrida armamentista no indo-pacifico foram o grande tema da conferencia, superando até a pandemia. Muitos usaram exemplo da guerra da Ucrânia e da Rússia como grande exemplo de como escalada de conflitos tomam rumos inesperados, e por isso são extremamente perigosos.
Os temores diante do acirramento da competição entre EUA x China tomou conta das discussões, Guerra na Ucrânia, Quad, Aukus, Acordo China – Ilhas Salomão e Taiwan foram os temas principais.
EUA
O secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin, articulou uma visão positiva da América para a região e como os Estados Unidos veem o Indo-Pacífico como o centro estratégico de gravidade para os interesses americanos no século XXI. Ele falou sobre a determinação do Departamento de Defesa de permanecer na vanguarda da inovação tecnológica, inclusive por meio de sua maior solicitação de orçamento para pesquisa e desenvolvimento.
Austin fez um lembrete confiante de que os Estados Unidos continuam sendo a maior força militar do mundo, dotada dos recursos mais significativos e das mais profundas parcerias com outras potências capazes. Austin repetidamente invocou o “poder das parcerias” para servir como multiplicador de força para enfrentar os desafios. Ele explicou que quanto mais a China forçar as fronteiras da região, mais os EUA e seus parceiros estreitarão seus laços para lidar com a assertividade chinesa.
Embora tenha sido direto ao criticar certos comportamentos chineses, também defendeu a manutenção de canais abertos com Pequim para administrar as tensões, evitou cuidadosamente qualquer enquadramento ideológico de competição com a China como uma disputa entre democracias versus autocracias.
Alegou que a política para Taiwan é guiada pelo objetivo amplamente compartilhado de preservar a paz e a estabilidade no Estreito de Taiwan. E mencionou que: “Os países do Indo-Pacífico não devem enfrentar intimidação política, coerção econômica ou assédio por milícias marítimas… Os movimentos da China ameaçam minar a segurança, a estabilidade e a prosperidade no Indo-Pacífico.”
China
O Ministro da Defesa chinês, general Wei Fenghe, foi mais direto, disse categoricamente que a China não pode ser isolada ou excluída da região. Alertou que as tentativas americanas de formar blocos exclusivos dividem e minam os interesses de todos e apelou aos participantes para resistirem aos planos americanos de tentar cercar e conter Pequim.
Em um outro momento, um membro do grupo de Wei disse que: “Os Estados Unidos já transformaram o Oriente Médio e a Europa em uma bagunça, eles querem bagunçar a Ásia-Pacífico a seguir?”.
Wei alertou que a China “esmagaria” quaisquer esforços para alcançar a independência de Taiwan, e que se outros quiserem confronto, o Exército de Libertação Popular lutaria até o fim sem vacilar. Ao mesmo tempo, que disse que uma “unificação pacífica” continua sendo o maior objetivo chinês.
Em suma, não houve grandes novidades nos discursos, o secretário de Defesa dos EUA falou sobre a visão positiva da América para a região, enquanto seu colega chinês, concentrou-se em como a China será importante para o futuro da Ásia e por que seria um erro para qualquer país para atravessar a China agora. Outro ponto chinês interessante foi que, após mais de 3 anos, ocorreu a primeira reunião bilateral de alto nível com a Austrália.
Outras nações
O primeiro-ministro japonês, Kishida Fumio, fez um discurso que, sem mencionar a China pelo nome, questionou as “tentativas unilaterais de mudar o status quo pela força” no Mar da China Oriental. Ele também mirou seus projetos em Taiwan, observando que as atividades chinesas no Estreito de Taiwan eram contrárias ao respeito pela “diversidade das pessoas, livre arbítrio e direitos humanos” e disse que “a Ucrânia hoje pode ser o leste da Ásia amanhã”
O novo ministro da Defesa francês, Sebastien Lecornu, observou incisivamente que os “problemas do Indo-Pacífico são problemas da França”, aparentemente contrariando um ponto de vista oficial indiano de que ‘os problemas da Europa eram os problemas do mundo; mas os problemas do mundo não eram os problemas da Europa’, um vídeo que viralizou na internet nessa semana feito pelo o ministro das Relações Exteriores, Jaishankar usava essa frase sobre os europeus.
Pela primeira vez, ocorreu uma interação virtual com um discurso especial do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, que disse que “sanções preventivas” deveriam ter ocorrido contra a Rússia antes do início da guerra.
Para uma região que está no “coração” da política externa e de segurança da Índia, conforme descrito pelo primeiro-ministro Narendra Modi no lançamento da visão da Índia para o Indo-Pacífico nessa mesma conferência em 2018, a ausência da representação ministerial do país deixou uma grande interrogação.
Ainda mais que o ministro da Defesa Rajnath Singh, visitou o Vietnã para expandir os compromissos bilaterais de Defesa e assinar um memorando de entendimento sobre o Apoio Logístico Mútuo.
Fiji diz que mudança climática, e não conflito, é a maior ameaça à segurança da Ásia. As ilhas baixas do Pacífico, que incluem Fiji, Tonga e Samoa, são alguns dos países mais vulneráveis do mundo aos eventos climáticos extremos causados pelas mudanças climáticas. “Em nosso continente azul do Pacífico, metralhadoras, caças, navios cinzas e batalhões verdes não são nossa principal preocupação de segurança”, disse Inia Seruiratu, ministra da Defesa de Fiji
O ministro da Defesa sul-coreano, Lee Jong-sup, disse que seu país aumentará suas capacidades de defesa e trabalhará em estreita colaboração com os Estados Unidos e o Japão para combater a ameaça nuclear e de mísseis da Coreia do Norte.
Lee, de Cingapura, disse que a situação na península coreana representa uma ameaça global e instou a Coreia do Norte a encerrar imediatamente seus programas de armas nucleares e mísseis.
Sudeste Asiático
Constrangidos por orçamentos limitados e pela necessidade premente de lidar com problemas socioeconômicos, a região parece dar outra amostra de resiliência, no entanto, a ASEAN e seus Estados não devem negligenciar a importância crucial de manter um equilíbrio de influência e poder entre as grandes potências para garantir espaço para sua própria independência.
Além de uma preocupação genuína de que a ASEAN seja marginalizada por esses novos acordos de segurança “minilaterais”, há a necessidade de não ofender a China, agora um poderoso ator econômico e militar, endossando novos acordos de segurança patrocinados pelos EUA.
O secretário de Defesa das Filipinas, Delfin Lorenzana, levantou preocupações legítimas sobre “armas versus arados” e “balas versus manteiga”. O ministro da Defesa de Cingapura, Ng Eng Hen, observou que estamos vivendo em ‘um ponto potencialmente perigoso da história’.
O ministro da Defesa da Indonésia, Prabowo Subianto, chamou a atenção da delegação da China ao invocar o espírito de ‘segurança asiática para asiáticos’. Mas o conceito mal articulado não passa de um mito, dada a diversidade da Ásia. É verdade que os mecanismos inclusivos e cooperativos da ASEAN também foram destacados para ajudar a construir confiança e cooperação.
Conclusão
O diálogo forneceu uma radiografia do atual cenário estratégico asiático, e o diagnóstico aponta para o aumento da tensão EUA-China pairando sobre todos do continente. Uma matéria do The Diplomat resumiu bem a Conferência, que ano após ano foca mais nesse conflito “o tom do Diálogo foi o de um vaso colocado precariamente perto da borda de uma mesa, a um pequeno deslize de se quebrar em pedaços”. A luz do sol da segurança cooperativa está diminuindo à medida que as sombras da desconfiança, corridas armamentistas e manobras militares aumentam.
Para as nações do sudeste asiático, manter o meio-termo entre paz e poder nunca foi tão importante, mas será cada vez mais difícil, a capacidade do subcontinente em moldar relações de poder enfrentará mais desafios. As vantagens da localização estratégica em rotas marítimas vitais e grande potencial econômico virou um prêmio que as grandes potências cobiçam. E a tendência é que essa alavancagem potencial de parceria com os grandes venha acompanhada de exigências de comprometimento maiores que as vistas até aqui.
Referências
The Need for Power Balance Amidst Rising Great Power Contestations
https://www.channelnewsasia.com/asia/south-korea-says-it-will-boost-defence-capacity-counter-north-korean-threat-2742016
https://thewire.in/diplomacy/shangri-la-ukraine-us-china-india-narrative-absent
https://thediplomat.com/2022/06/shangri-la-dialogue-concludes-under-shadow-of-ukraine-us-china-tensions/
America and China present dueling narratives at Shangri-La Dialogue
https://www.iiss.org/events/shangri-la-dialogue/shangri-la-dialogue-2022
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