A histórica eleição na Malásia

Cenário Geral

Dia 19 houve a 15º eleição geral da Malásia, ela determinou os membros da “câmara baixa” para mandatos de cinco anos, o país conta também com membros da “câmara alta” que possuem mandatos de três anos e que podem se reeleger somente uma vez.

Espera-se que as eleições acalmem a instabilidade política que o país sofre desde as últimas eleições de 2018, período em que houve três primeiros-ministros.

Em outubro, o primeiro-ministro, Ismail Sabri recebeu o consentimento do rei para dissolver o parlamento, o rei também decretou que as eleições deveriam ser antecipadas por causa do período de cheias das monções que devem atingir pelo menos seis estados e afetar milhões de pessoas.

O curioso é que baseado em estimativas e análises internas do partido United Malays National Organisation (UMNO) que a dissolução foi feita, o erro de cálculo foi tão grande e a votação tão baixa que agora parte do partido quer inclusive a renúncia do presidente Zahid.

 

Disputa

Partidos e coalizões disputaram 222 assentos federais, sendo necessários 112 para que qualquer bloco único forme um governo. A eleição foi uma batalha de três coalizões: a Frente Nacional liderada pela Organização Nacional dos Malaios Unidos (UMNO) do atual primeiro-ministro Ismail Sabri Yaakob, a coalizão da Aliança Nacional presidida por Muhyiddin Yassin e a coalizão de oposição Pacto da Esperança liderada por Anwar Ibrahim.

Anwar Ibrahim  estava tentando repetir a vitória de seu partido em 2018, quando o Pacto da Esperança liderado por Mahathir e Anwar obteve uma vitória histórica sobre a Frente Nacional, que nunca havia perdido uma eleição desde a independência em 1957. Mahathir então presidiu a coalizão, mas uma disputa política interna resultou na queda do governo em 22 meses.

 

Jovens

 

Os jovens que votam pela primeira vez provavelmente talvez tenham sido a chave para as eleições, cerca de 21,17 milhões de pessoas podem votar, desse total, 1,4 milhão de eleitores de 18 a 21 anos. Esse grupo demográfico ganhou o direito de votar por meio de uma emenda constitucional em 2019, que reduziu a idade legal de 21 para 18 anos e tornou o grupo de 18 a 29 anos a maior classe de eleitorado desta eleição com 6 milhões.

 

Resultado

O cenário eleitoral fragmentado do país se refletiu no fato de que nenhum partido conquistou sozinho as 112 cadeiras necessárias para formar o governo, iniciando um período de frenéticas negociações de coalizão. A aliança multiétnica Pakatan Harapan (PH) do líder da oposição Anwar Ibrahim, que venceu a eleição geral em 2018, teve o melhor desempenho na eleição, conquistando 82 cadeiras federais de 222 parlamentares.

Mas o partido com maior probabilidade de formar o núcleo do próximo governo é a aliança Perikatan Nasional (PN), liderada pelo ex-primeiro-ministro Muhyiddin Yassin. Desconsiderada pela maioria dos especialistas antes da eleição, a aliança de Muhyiddin conquistou inesperadamente 73 cadeiras. Ele deve “vencer” depois de garantir o apoio da coalizão baseada em Sarawak, Gabungan Parti Sarawak, que conquistou 22 assentos.

De fato, o verdadeiro vencedor da eleição de sábado foi indiscutivelmente o Partido Islâmico Pan-Malaio (PAS), uma parte da coalizão PN, que mais que dobrou seu número de assentos de 18 em 2018 para 49 este ano. O PAS vem do lado mais exclusivista e chauvinista do espectro político étnico malaio: defende a introdução da lei Sharia, que introduziu parcialmente regras nos três estados que governa, e agora é o maior partido dentro do PN.

Jahabar Sadiq, CEO e editor-chefe do The Malaysian Insight, argumentou que o PAS lucrou mais com o “tsunami malaio” da eleição, ao se posicionar contra a corrupção e as lutas internas da UMNO/BN. ”A considerável maquinaria de base do PAS trabalhou incansavelmente nas áreas rurais e semiurbanas para arrebatar assentos dos rivais”.

Análise

 

A eleição marca também a mais notável implosão do UMNO e sua coalizão Barisan Nasional (BN), que antes de sua derrota chocante em 2018, governou a Malásia continuamente desde a independência em 1957, o partido conquistou apenas 30 cadeiras. Para comparar o tamanho do problema, foram 148 assentos nas eleições de 1999, 140 assentos em 2008 e 133 assentos em 2013, e  79 em sua derrota para o PH em 2018

No entanto, a queda do UMNO/BN não aponta necessariamente para um futuro mais progressista ou etnicamente inclusivo para a política malaia, na verdade indica o contrário, sugere que o eleitorado favorável a uma política multiétnica está abaixo do limiar capaz de vencer e manter o governo.

Além disso, o sucesso do PN demonstra que a noção de Ketuanan Melayu, ou supremacia malaia, que a UMNO defende há muito tempo continua sendo uma corrente importante na política malaia. O resultado deve, portanto, ser visto mais como um repúdio à UMNO/BN como instituição do que uma rejeição aos preceitos de Ketuanan Melayu como tal.

De fato, a ascensão do PAS aponta para a crescente islamização da política de identidade malaia que dominou o país desde a independência. O próximo governo da Malásia parece estar se inclinando para a direita religiosa e nacionalista

“Esta eleição reforçou a política de identidade. Dado que nenhum partido tem maioria absoluta, o governo de coalizão recém-formado precisará unir a nação”, disse Amir Fareed Rahim, diretor de estratégia de assuntos públicos da consultoria de risco político KRA Group.

Muitos malaios rurais, que formam dois terços dos 33 milhões de habitantes da Malásia – que inclui grandes minorias de etnia chinesa e indiana – temem perder seus direitos com maior pluralismo sob a aliança de Anwar. Isso, junto com a corrupção na UMNO, beneficiou o bloco de Muhyiddin.

A ascensão do PAS para além dos seus estados tradicionais do norte (Terengganu, Kelantan, Perlis e Kedah) marca como um importante intermediário de poder no nível federal. Em suma, Um bloco de partidos nacionalistas de etnia malaia provavelmente formará o próximo governo.

 

 

Desenrolar

Após 6 dias de empasse e com os três líderes de coalizações se recusando a fechar a questão, o rei se viu em uma situação muito complicada, mas após conversas e negociações ele nomeou Ibrawin como primeiro-ministro que agora vai ter que sentar com o UMNO e negociar para conseguir montar o governo finalmente.

“Sua Alteza Real lembra a todas as partes que os vencedores não ganham tudo e os perdedores não perdem tudo”, dizia um comunicado do palácio. O monarca exortou Anwar e seu novo governo a serem humildes e disse que todas as partes opostas devem se reconciliar para garantir um governo estável e acabar com a turbulência política da Malásia, que levou a três primeiros-ministros desde as eleições de 2018.

A ascensão de Anwar ao topo diminuirá os temores sobre uma maior islamização. Mas ele enfrenta uma tarefa árdua para superar as divisões raciais que se aprofundaram após a votação de sábado, bem como reviver uma economia que luta contra o aumento da inflação e uma moeda que caiu a seu ponto mais fraco em muitos anos.

Ele venceu as eleições de 2018 que levaram à primeira mudança de regime desde a independência da Malásia da Grã-Bretanha em 1957. Mas o governo entrou em colapso depois que Muhyiddin desertou e deu as mãos à UMNO para formar um novo governo. O governo de Muhyiddin foi assolado por rivalidades internas e ele renunciou após 17 meses. O líder da UMNO, Ismail Sabri Yaakob, foi então escolhido pelo rei como primeiro-ministro.

Muitos malaios rurais temem perder seus privilégios com maior pluralismo sob Anwar. Fartos de corrupção e lutas internas na UMNO, muitos optaram pelo bloco de Muhyiddin na votação de sábado.

Fim de uma era

A derrota de Mahathir bin Mohamad (97 anos), que está na política há mais de 50 anos, e foi primeiro-ministro pela primeira vez há 41 anos não foi uma derrota comum. Na Malásia, todos os candidatos devem fazer um depósito em dinheiro antes de concorrer. Eles só recebem de volta o depósito se obtiverem 12,5% dos votos em seu eleitorado contestado.

A derrota de Mahathir em Langkawi foi sua primeira derrota eleitoral em 53 anos, terminando em quarto lugar em uma disputa com cinco candidatos. Ele conseguiu apenas 4.566 votos, ou 6,8% Menos do que o necessário para recuperar seu depósito. Da mesma forma, seu filho Mukhriz também perdeu seu depósito após um fiasco eleitoral, sugerindo que os malaios não apoiam uma dinastia Mahathir.

 

Referencias

 

https://www.channelnewsasia.com/commentary/malaysia-election-ge15-pas-pn-pakatan-mahathir-3087921?internal_sharetool_iphone_21112022_cna

https://thediplomat.com/2022/11/reformist-leader-anwar-named-prime-minister-of-malaysia/

https://apnews.com/article/asia-legislature-malaysia-general-elections-4e693cd677e3acc15b725269cf100160

https://thediplomat.com/2022/11/malay-nationalist-bloc-on-brink-of-power-in-malaysia-after-divisive-election/

https://asia.nikkei.com/Politics/Malaysia-election/Malaysia-s-general-election-4-things-to-know

 

 

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