Migrações para o sudeste asiático

Migrações para o sudeste asiático

Quando pensamos em migração, ou seja, o deslocamento de uma região para a outra, sempre vem à ideia do movimento de um grupo de pessoas de um país pobre ou de renda média (Segundo o Banco Mundial, economias com renda per capita na faixa entre US$1.036 e US$12.615) para um país rico em busca de melhores condições de vida. Acontece que, o mundo está cheio de movimentos inversos e com o mesmo objetivo. Selecionei alguns casos curiosos do sudeste asiático para demonstrar que pessoas de países ricos também têm optado por viver em países pobres ou medianos em busca do mesmo desejo de viver melhor.

 

Do Japão para a Malásia

Ainda que seja um país de renda média com grandes chances de virar rico muito em breve (de acordo com a medição do Banco Mundial acima), a Malásia com seus U$11.109,26 USD tem sido palco de um movimento migratório curioso, o de aposentados japoneses. No final dos anos 2000, a Malásia começou a se tornar um destino popular para aposentados japoneses através de um programa chamado “my second home” lançado em 2002, que nos primeiros anos recebeu pouco mais de 500 idosos.

O Malaysia My Second Home é um programa promovido em conjunto pela Autoridade de Turismo e pelo Departamento de Imigração do país para permitir que estrangeiros permaneçam na Malásia por um período de dez anos. Estrangeiros que atendam a certos critérios podem se inscrever, e um candidato bem-sucedido pode trazer cônjuge, filho solteiro menor de 21 anos e pais com mais de 60 anos. Atualmente estima-se que mais de 40 mil pessoas foram aprovadas, dentre elas, por volta de 3.500 japoneses.

Esses aposentados às vezes se referem a si mesmos ironicamente como migrantes econômicos ou mesmo refugiados econômicos , referindo-se ao fato de que eles não poderiam ter uma qualidade de vida tão alta na aposentadoria, ou mesmo se aposentar, se ainda vivessem no Japão.

Os motivos para essa mudança são diversos: baixo custo dos imóveis e contratação de trabalhadores “domésticos”, clima quente e mais ameno, bom sistema educacional com diversas escolas internacionais, e a sensação de pertencimento já que além dos mais de 3 mil aposentados, a comunidade nipônica por lá representa cerca de 31 mil pessoas.

Outros três motivos são dignos de dar mais ênfase:

– o boom dessa migração começou pós 2011, muitos japoneses veem com desconfiança seu governo após o acidente nuclear de Fukishima, muitos acreditam que o verdadeiro perigo é ocultado pelas autoridades.

– Muitos, principalmente os idosos, sentem-se sozinhos, reclamam da cultura híper individualista, e quando migram, viram frequentadores de clubes especializados em atividades para a terceira idade,

– O sistema de saúde oferecido pela Malásia, muitos japoneses de classe média não conseguem manter os altos custos com saúde no Japão.

Em suma, a busca por qualidade de vida dos japoneses de classe média, que estão na fronteira economia e tecnológica, e que nos anos 80 eram vistos como uma potência capaz de superar os EUA, hoje, passa por uma necessidade de morar em outro país.

 

Dos EUA para o Vietnã

 

Ainda dentro da temática dos aposentados, um caso ainda mais interessante, ainda que em menor número, é o caso dos americanos que optam por viver no Vietnã. O país possui um sistema público de saúde que fornece serviços médicos básicos aos seus cidadãos. O sistema é administrado pelo Ministério da Saúde, que supervisiona os hospitais, clínicas e outras instalações médicas públicas.

O sistema público de saúde no Vietnã é financiado pelo governo e pelos pacientes. O governo financia a maior parte do sistema, mas os pacientes ainda precisam pagar por alguns serviços e tratamentos médicos. O valor que os pacientes pagam depende de seu nível de renda e do tipo de serviço ou tratamento que estão recebendo.

Nos últimos anos, o governo vietnamita fez investimentos significativos em seu sistema de saúde para melhorar sua qualidade e acessibilidade. Isso incluiu a construção de novos hospitais e instalações médicas, treinamento de mais profissionais de saúde e expansão da cobertura de saúde para mais áreas rurais do país.

Apesar desses esforços, a qualidade dos cuidados de saúde no Vietnã ainda pode variar dependendo da região, enquanto alguns hospitais e clínicas estão bem equipados e contam com profissionais de saúde qualificados, outros podem não ter recursos e experiência para fornecer atendimento de alta qualidade.

Mesmo com esses problemas típicos de um país de renda média, o país é lar cerca de 400 americanos aposentados que mudaram exclusivamente para ter uma melhor qualidade de vida, principalmente quando o assunto é saúde.

O custo de vida econômico e as diversas experiências de viagem fazem do Vietnã um dos oito países mais ideais para os americanos se mudarem após a aposentadoria, de acordo com a revista Travel+Leisure.

“O Vietnã é um lugar muito acessível para se aposentar, especialmente para aposentados aventureiros que apreciam as praias, paisagens, comida, história e cultura do país”, disse a revista americana.

O custo de vida geral é cerca de 49% menor do que nos EUA, e os aluguéis são cerca de 75% menores. Na cidade de Ho Chi Minh, lar da maior comunidade de expatriados, o custo de vida é 62% menor do que em Nova York, e a moradia é cerca de 83% menor.

No entanto, “obter um visto não é tão simples no Vietnã quanto em muitos outros países, mas é possível solicitar estadias de longo prazo ou vistos de negócios

O Vietnã tem uma das políticas de visto mais rígidas da Ásia, oferecendo isenção de visto para apenas 24 países e territórios para estadias máximas de até 30 dias. Os americanos não estão na lista, mas podem solicitar vistos eletrônicos. Os outros sete principais destinos de aposentadoria listados pela revista são: México, Equador, Costa Rica, Panamá, Colômbia, Portugal e Montenegro.

 

Do Japão para as Filipinas

O fenômeno das “noivas de guerra” do Japão se mudando para o Ocidente tem sido amplamente discutido, NAS Filipinas há o caso das “mulheres de Okinawa”. Depois que se casaram com ocupantes estrangeiros durante a ocupação de Okinawa pelos Aliados de 1945 a 1972, muitas mulheres conheceram e tiveram relacionamentos com militares filipinos, que era maioria na base local.

Essas mulheres criaram suas próprias identidades como migrantes de primeira geração ou “Issei”, tanto no país de migração quanto em sua terra natal, sua reintegração à sociedade de Okinawa, as diferenças culturais, linguísticas e religiosas fizeram essas mulheres se sentirem sem pátria. O japonês falado por elas é de difícil entendimento, uma vez que deixaram o país há muito tempo, o catolicismo que passaram a praticar também é outro papel nesse abismo identitário com sua terra natal. Hoje em dia já existem os “nissei”, ou seja, a segunda geração, ainda mais absorvida pela cultural filipina, criando ainda mais esse senso de falta de pertencimento.

 

Conclusão

O que muitos chamam de neoliberalismo, ou seja, a ultra financeirização da economia, o desmonte de políticas públicas, a desvalorização da moeda, o corte de impostos dos mais ricos sobrecarregando a classe média e tantos outros fatores que vemos nas últimas décadas nas maiores economias do mundo, têm gerado um mal estar generalizado e sensação de piora da qualidade de vida, principalmente dessas populações não habituadas a crises políticas e econômicas. E como um dos vários efeitos dessa crise do capitalismo vemos esse novo movimento inverso de migrações dos países ricos para mais pobres.

 

Referências

Japan’s elderly in Malaysia, like shooting stars in the twilight

https://newbooksnetwork.com/okinawan-womens-stories-of-migration

https://www.state.gov/u-s-relations-with-the-philippines/#:~:text=More%20than%20four%20million%20Filipino,number%20of%20U.S.%20military%20veterans.

https://manilastandard.net/lgu/luzon/289155/fatherless-kids-numbers-grow-in-angeles-city.html

https://www.businesstimes.com.sg/singapore/economy-policy/foreign-enrolment-singapore-private-schools-picks-borders-reopen

https://www.statista.com/statistics/698035/singapore-number-of-immigrants/

https://e.vnexpress.net/news/travel/vietnam-among-top-destinations-for-american-retirees-4492844.html

https://www.axios.com/2019/12/29/retirement-vietnam-boomer

https://en.wikipedia.org/wiki/Malaysia_My_Second_Home

https://www.statista.com/statistics/1080646/japan-number-japanese-residents-malaysia/

 

 

 

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