Cúpula Rússia – Asean
Aconteceu entre os dias 17 e 18 agora, a Cúpula Comemorativa Rússia-ASEAN, marcando o 35º aniversário das relações de diálogo.
Nove, dos onze chefes de Estado ou de governo da ASEAN reuniram-se com o presidente Vladimir Putin, apenas Indonésia e Myanmar representados abaixo do nível de chefes de Estado. Devido à sua exclusão das reuniões de alto nível da ASEAN, Mianmar foi representado por um funcionário do Ministério das Relações Exteriores e a Indonésia foi representada pelo seu ministro das Relações Exteriores, Sugiono.
Uma segunda sessão da cúpula, realizada a portas fechadas, consistiu em um café da manhã de trabalho com foco nos “processos de integração no espaço eurasiático”, com a participação do Secretário-Geral da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) e do Presidente da Comissão Econômica Eurasiática. Isso reflete a intenção de Moscou de estreitar os laços entre o sudeste asiático e as estruturas multilaterais eurasiáticas.
Não que a Rússia precise mais disso, o ocidente já sabe que foi um fracasso, mas é importante ressaltar a simbologia dessa visita em mostrar que não existe isolamento a Moscou. Principalmente por ela ter ocorrido em paralelo ao combalido G7, que virou um Estados Unidos mais 6 aliados menores sem o menor espaço para voz ou voto.
Enquanto o G7 emitiu em sua declaração que “apoio inabalável à Ucrânia na defesa de sua liberdade, soberania e integridade territorial”, a Rússia considerava um sucesso maior do que inicialmente projetado por eles a reunião com praticamente todos os líderes da Asean, talvez no momento apenas a China consiga algo desse tamanho. O presidente indonésio, Prabowo Subianto, esteve em reunião com Putin em Moscou no final de abril, somente por isso não esteve lá nessa cúpula.
A Cúpula adotou quatro documentos de resultado: (i) a Declaração de Kazan 2026 “ASEAN-Federação Russa: Unidade na Diversidade – 35 Anos Juntos”; (ii) a Declaração Conjunta da ASEAN e da Federação Russa sobre Cooperação Energética; (iii) a Declaração Conjunta da ASEAN e da Federação Russa sobre Cooperação Cultural; e (iv) o Plano de Ação para Implementar a Parceria Estratégica ASEAN-Federação Russa (2026–2030). A adoção desses documentos ressalta o compromisso compartilhado da ASEAN e da Rússia de avançar a Parceria Estratégica ASEAN-Rússia e fornece um quadro prospectivo para orientar sua cooperação nos próximos anos.
Em suma, falam sobre expandir a cooperação em várias frentes diferentes, com base numa “aspiração comum” por “um mundo multipolar justo, guiado pelo direito internacional e pelos princípios da Carta das Nações Unidas”. As duas partes também adotaram o Plano de Ação Abrangente ASEAN-Rússia 2026-2030, que servirá como “documento orientador” para o futuro envolvimento entre o bloco e a Rússia.
No Plano de Ação Abrangente para 2026-2030, ambos os lados se comprometeram a “fortalecer a cooperação no uso e desenvolvimento de todas as fontes de energia” e a “fortalecer a cooperação para aumentar a segurança energética”. Moedas nacionais. Comércio, energia, segurança, cultura, tecnologias. Não é apenas mais uma foto diplomática. É uma arquitetura. Moscou e o Sudeste Asiático avançam para uma ordem fundada na soberania, no direito internacional e nos interesses reais dos Estados.
Relação Bilateral
Segundo dados oficiais da própria Association of Southeast Asian Nations, em 2024 a Rússia foi o 10º maior parceiro comercial da ASEAN, com um comércio bilateral de cerca de US$ 18,1 bilhões, representando um aumento de 13,2% em relação a 2023. Possuem uma meta de elevar o comércio bilateral para até US$ 45 bilhões até 2035
– 10º maior parceiro comercial entre os parceiros de diálogo da ASEAN;
– 11ª maior fonte de investimento estrangeiro direto (IED) para o bloco em 2024
Muito aquém, e abaixo dos 9 primeiros. Claro que fatores como falta de proximidade geográfica, medo de sanções secundárias e economias poucos complementares ajudam a dificultar o estreitamento de laços. É preciso lembrar também que a Rússia “desiste” de se aproximar com o ocidente e “abraça” o “eurasiatismo” Apartir de 2014 com a anexação da crimeia e as primeiras sanções contra o país. E somente no começo dos anos 2000 que a economia se estabilizou e começou a reaver parcerias comerciais e expansão política.
O apelo sobre a Ucrânia é obviamente muito menor na região, a Pesquisa sobre o Estado do Sudeste Asiático 2026 (SSEA) classificou o tema em sétimo lugar entre as preocupações geopolíticas dos entrevistados, atrás de preocupações prioritárias como o Mar da China Meridional e o aumento dos preços de alimentos e a crise do Irã.
A energia, principalmente a nuclear, é sem dúvida alguma o grande trunfo russo, a declaração conjunta destacou o petróleo e o gás, a tecnologia nuclear civil e a segurança energética em geral, refletindo o interesse da ASEAN em ampliar suas opções de fornecimento em meio à crescente incerteza decorrente dos desafios de abastecimento causados pela crise no Oriente Médio. É improvável que o fornecimento russo substitua os parceiros já estabelecidos na região, mas poderia fornecer uma reserva adicional para algumas economias da ASEAN.
E no que se refere a nuclear, a Rússia tem um conhecimento e disposição em fazer parcerias e transferência de tecnologias que outros players não estão dispostos a fazer, como os Estados Unidos e a França. Coreia e Japão já demonstraram interesse em concorrer, assim como a China, mas até como hedge, os países da Asean têm escolho os russos para evitar ficarem ainda mais dependentes com Pequim.
Vietnã, Indonésia, Filipinas, Tailândia e Malásia já possuem programas nucleares ativos ou em preparação, o Vietnã inclusive, com estruturas físicas montadas. O acidente de Fukushima congelou o tema na região, quando ocorreu, em 2011, esses países também estavam buscando aproximação com a Rússia para dar início a essas tratativas.
Com o complemento do avanço tecnológico de hoje, que permite pequenas usinas, a demanda potencial por energia nuclear na ASEAN mudou de “interesse teórico” para “planejamento concreto”.
Frases de Pútin
– Rússia e ASEAN comprometem-se a formar uma ordem mundial multipolar justa e democrática
– A Rússia continuará a fornecer aos países da ASEAN os alimentos e a energia de que necessitam.
– A Rússia e a ASEAN estão a expandir rotas transcontinentais de transporte marítimo e ferroviário e a abrir novos corredores A Rússia propõe aumentar as exportações de produtos de alto valor acrescentado para a ASEAN, incluindo fertilizantes e produtos farmacêuticos
– O Sudeste Asiático não é um terreno de manobras ocidentais, mas um polo soberano do mundo multipolar.
– A ASEAN demonstrou sua solidez ao longo das décadas ao desenvolver um sistema de cooperação entre Estados baseado no direito internacional e na consideração mútua dos interesses de seus membros
– A Rússia e as nações da ASEAN defendem conjuntamente a formação de uma ordem mundial justa, defendem os princípios da igualdade soberana dos Estados e da não interferência em assuntos internos”
– Todos os nossos Estados seguem seus próprios modelos de desenvolvimento e não impõem seus pontos de vista a ninguém. E essa é, de fato, a nossa força, A Rússia está pronta para continuar o trabalho conjunto ativo com os Estados-membros da ASEAN com o objetivo de fortalecer a parceria estratégica, visando garantir a segurança, o bem-estar e a prosperidade de nossos países e povos, bem como da região eurasiática como um todo.
– Nossas relações neste clima geopolítico turbulento servem como uma força estabilizadora no Pacífico.
– A Associação das Nações do Sudeste Asiático construiu uma reputação não apenas na região da Ásia-Pacífico, mas globalmente. São esses mesmos princípios que estão na base das relações entre a Rússia e a ASEAN. Eles alcançaram o nível de uma parceria estratégica que, em tempos de turbulência geopolítica, é o fator estabilizador mais importante na região da Ásia-Pacífico.
– Naturalmente, continuaremos a fornecer alimentos e energia aos nossos amigos asiáticos, que têm alta demanda.
Ele também destacou a disposição da Rússia em cooperar com os governos do Sudeste Asiático no desenvolvimento de programas pacíficos de energia nuclear por meio da corporação nuclear estatal Rosatom. Praticamente todos os países da Asean buscam o uso da energia nuclear para suplantar a alta demanda por energia devido ao alto crescimento econômico e a urbanização que vem ocorrendo por la.
Filipinas
Em seu discurso de boas-vindas como copresidente da Asean, Marcos afirmou que ambos os lados têm muito a ganhar com uma cooperação mais estreita.
“Em uma era de crescente incerteza geopolítica, o valor de um engajamento político e de segurança constante entre a ASEAN e a Rússia não pode ser subestimado”
“Devemos ser mais intencionais e ambiciosos na expansão das oportunidades econômicas, na melhoria da facilitação do comércio, no aprofundamento dos fluxos de investimento e na conexão de nossas comunidades empresariais”, “A segurança alimentar e energética merecem, em particular, atenção, pois são os alicerces sobre os quais se assenta uma estabilidade mais ampla.”
Putin recordou que além dos a os 35 anos Rússia-ASEAN, esse ano marca também os 50 anos Rússia-Filipinas.
Laos
Putin agradeceu ao primeiro-ministro do Laos pelos dois elefantes que Vientiane doou a Kazan.
Os animais serão mantidos nas melhores condições possíveis, garantiu o presidente.
Antigo nome: Antes do período colonial, o território era conhecido como Reino de Lan Xang, que se traduz como “Terra de Um Milhão de Elefantes”
Malásia
Anwar disse que não existe russofobia para além do ocidente, e comentou que ouve música russa e que ama a literatura, citou Tolstói, Chekhov Anna Akhmatova e Boris Pasternak.
Anwar: A Malásia considera que o processo de integração regional deve ser aberto, inclusivo, transparente e mutuamente complementar, além de contribuir para a paz, a estabilidade, o comércio, a conectividade e o desenvolvimento. Enfatizei também que a cooperação da ASEAN com a Organização de Cooperação de Xangai (SCO) e a União Econômica Eurasiana (EAEU) deve se basear nas prioridades da ASEAN e se concentrar em resultados concretos e significativos. No contexto da ASEAN-SCO, a Malásia identifica o crime transfronteiriço e a cooperação energética como duas áreas prioritárias que devem ser fortalecidas por meio de compartilhamento de expertise, construção de capacidade e esforços conjuntos. Para a ASEAN-EAEU, a Malásia instiga o aumento do envolvimento do setor privado, especialmente na ajuda às pequenas e médias empresas para expandir o acesso ao mercado, adaptar tecnologias e aprimorar habilidades. A Malásia também destaca a economia digital, a inteligência artificial (IA), a segurança cibernética e a segurança alimentar como áreas estratégicas com potencial para trazer grandes benefícios a todas as partes.
Singapura
A visita do primeiro-ministro Lawrence Wong é outra amostra da força russa e da decadência relativa do ocidente, a cidade-estado sancionou os russos após a invasão da ucrânia, é verdade que isso reflete sua política externa de proteger os pequenos, considerando sua própria geopolítica, mas é inegável que cedeu aos apelos do ocidente, e mesmo assim, Lawrence Wong lá estava, frente a frente com o sancionado Putin.
O Corpo diplomático de Singapura que as snções visavam especificamente atividades financeiras, militares e tecnológicas ligadas ao esforço de guerra da Rússia e não tinham a intenção de romper relações diplomáticas ou impedir completamente a cooperação.
Esse é outro sinal dos novos tempos de transição de poder e instabilidade sistêmica, ao mesmo tempo que mantém abertos os canais diplomáticos e regionais. Singapura pode participar de um processo da ASEAN sem recuar em sua posição sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia, desde que qualquer cooperação permaneça dentro dos limites de suas sanções.
Em uma publicação no X ontem, referente ao seu encontro paralelo com Putin, o primeiro-ministro Lawrence Wong afirmou que seu país se opôs à invasão russa “não por alinhamento com qualquer lado, mas porque acreditamos que a soberania e a integridade territorial de todos os países devem ser respeitadas”.
Wong acrescentou: “Singapura valoriza seus laços de longa data com a Rússia e seu povo, e continuaremos buscando oportunidades de cooperação em áreas de interesse mútuo”.
Temos muito a oferecer um ao outro em segurança da informação internacional — Putin ao primeiro-ministro de Singapura, Lawrence Wong ‘Sabemos que você está bastante interessado nisso porque estamos falando de um dos principais desafios para o mundo moderno’
Tailandia
O PM Anutin disse que a ASEAN e a Rússia deveriam expandir a cooperação em cadeias de suprimento de fertilizantes, tecnologia agrícola, segurança alimentar, segurança energética e tecnologias energéticas futuras. Ele também instou a uma maior colaboração para combater o cibercrime, golpes online, tráfico de pessoas e outros crimes transnacionais.
‘No próximo ano, celebraremos o 130º aniversário das relações diplomáticas’
Vietna
Pútin não fala do Vietnã como de um parceiro entre outros, ele se refere ao país como: “Um parceiro antigo, confiável e até mesmo um aliado.”. Hanói é de longe o maior parceiro político, econômico e militar da Rússia na região.
Resumo:
- Combatendo o isolamento: Ao reunir líderes de todo o Sudeste Asiático, o Kremlin sinaliza que mantém alcance diplomático e poder de articulação multilateral de alto nível.
- Compromisso com a Autonomia Estratégica: A participação dos líderes do Sudeste Asiático reflete o compromisso da ASEAN com a diplomacia multivetorial. Mesmo países com orientações pró-EUA bem definidas, como as Filipinas e Singapura, optaram por participar em alto nível. A presença deles reforça a determinação da ASEAN em evitar alinhamentos binários e manter o acesso a todas as grandes potências para cooperação econômica, de segurança e tecnológica.
- O Arco Institucional Eurasiático: A cúpula fortalece os esforços da Rússia para construir um arco de integração que ligue a UEEA, a OCS e a ASEAN. Essa abordagem está alinhada ao interesse da ASEAN em corredores econômicos diversificados e cadeias de suprimentos resilientes.
- Dependências Energéticas e Nucleares: A cooperação energética e nuclear está emergindo como um pilar fundamental da influência de longo prazo da Rússia no Sudeste Asiático. Vários países da ASEAN estão explorando a energia nuclear civil como parte de suas transições para uma economia de baixo carbono, e a oferta de tecnologia, treinamento e financiamento por Moscou proporciona um ponto de entrada estratégico.
- Canais Alternativos de Segurança: A cúpula destaca a crescente importância das tecnologias digitais, da cibersegurança e do combate ao crime transnacional. As preocupações da ASEAN com relação a fraudes online, crimes cibernéticos e redes ilícitas se cruzam com as prioridades de segurança da Rússia.
- Fundamentos do Soft Power: O turismo e os intercâmbios culturais reforçam a presença do soft power russo no Sudeste Asiático. Com milhões de turistas russos viajando para a Tailândia, o Vietnã e a Indonésia, a expansão de voos diretos e iniciativas de turismo de longa duração fortalece os laços interpessoais, criando uma base social que apoia um engajamento político mais amplo.
