ASEAN #4 – Rio Mekong e a guerra pela água
Com o aumento populacional, as mudanças climáticas e a agricultura moderna, a guerra pela água já é uma realidade, há casos na Palestina, Turquia, Iraque e Síria. Muitos indicam que essa será a grande tônica de conflitos desse século. Diante deste cenário, o rio Mekong na Ásia tornou-se pivô de uma instabilidade multilateral. Um dos maiores rios do mundo, o Mekong possui um comprimento variável entre 4350 e 4990 km, é o 13.° mais longo e 10.° mais volumoso. Nasce no Planalto do Tibete, percorre parte da China, Myanmar, Tailândia, Laos, Camboja e Vietnã.

Mesmo com todo esse volume, já há indícios de secas em algumas partes devido a barragens que impedem seu fluxo. A China construiu 11 barragens e tem planos para outras oito ao longo de seu trecho superior do rio, Camboja e Vietnã que crescem de 6 a 7% consideram vital esse tipo de construção. Para além das consequências ambientais, há o geopolítico. Por ter a nascente e as partes mais altas em sua posse, a China passa a ter o poder de controlar o fluxo do rio e por consequência, o crescimento econômico dessas nações, assim como, barganhar eventuais trocas de favores para permitir o escoamento de maiores volumes de água.

*Rio Mekong e suas barragens
Em 2016, esses governos do sudeste asiático pediram à China que liberasse mais água de suas barragens para ajudar a aliviar uma seca severa. Pequim atendeu, mas analistas observaram que o incidente demonstrou o nível de controle chinês sobre a hidrovia, em uma próxima vez ela pode não atender ou exigir contrapartidas. Há também a possibilidade de transformar hidrelétricas em verdadeiras armas, no inicio desse ano, quando as autoridades chinesas abriram os portões de uma dessas barragens para manutenção, causou inundações no Laos e na Tailândia, destruindo plantações e pescarias.
O Vietnã, que talvez seja o maior oponente da China dentre esses citados, por questões de disputas marítimas, teme que uma questão interfira na outra. No seu vizinho Laos, as exportações de energia e mineração representam cerca de um terço do produto interno bruto (PIB), se a China ameaçasse interromper o fluxo de água, não demoraria muito para que a paralisação desestabilizasse toda a economia do país que não possui litoral.
Sob o Direito Internacional, cada nação é soberana sobre rios dentro de seu território, legalmente não há nada que se possa fazer. Washington lançou recentemente uma Parceria de Energia Japão-EUA Mekong, que visa ajudar a desenvolver o fornecimento de eletricidade da região, um pacote de assistência de US $ 14 milhões para combater o crime transnacional e o tráfico no Mekong, mas qualquer patrulha apoiada ou financiada pelos EUA seria ineficaz se a China decidisse se envolver e interromper o fluxo de água.
A China por sua vez, criou sua própria rede de cooperação chamada Lancang (Mekong em chinês) Mekong. O projeto chinês está lutando contra o projeto de financiado ocidental, uma espécie de Guerra Fria EUA-China.
O Vietnã sofreu a pior seca em 90 anos em 2016 e atribuiu esse desastre em parte ao impacto de represas das barragens. Preocupações semelhantes foram levantadas no Laos, onde os níveis de água no rio variam drasticamente conforme a China abre ou fecha suas barragens e está com sua capital seca.
Mas com a China controlando o fluxo de água e os fundos de desenvolvimento, há pouco a ser feito além de cooperar com as ambições e os projetos de Pequim.
