Asean e o terrorismo

O Departamento de Estado dos EUA divulgou recentemente seu relatório anual sobre terrorismo por país. O relatório oferece ao Congresso dos Estados Unidos uma visão geral dos países e regiões que o governo acredita que estão combatendo ou apoiando o terrorismo. Quando se refere ao Sudeste Asiático, o resultado do estudo termina como satisfatório. No entanto, adverte que várias redes militantes com agendas transnacionais estão tentando estabelecer redes na região, ameaçando os interesses de segurança de Washington. Indonésia, Malásia e Filipinas são os países com maiores ameaças.

O relatório apresenta uma estratégia para alcançar uma melhor cooperação entre as agências de inteligência desses países, observando que uma abordagem multilateral, apoiada pela Indonésia, Malásia e Filipinas, pode ser eficaz no tratamento de ameaças terroristas da ASEAN.

Avaliando o desempenho da Indonésia, o relatório observa os esforços da Agência Nacional de Contraterrorismo da Indonésia (BNPT) para introduzir programas de desradicalização para prisioneiros terroristas. (algo semelhante com o feito pela China e chamado de campos de concentração). Entre outras táticas, o país tem usado ex-terroristas para campanhas que ajudaram a estabelecer internatos para educar seus filhos.

Descrevendo o papel da Malásia como “um ponto de trânsito” para grupos terroristas, o relatório lista Kuala Lumpur como um “país de destino ” para esses grupos, incluindo o Estado Islâmico e a Al-Qaeda. No entanto, observa que em 2018, a Malásia lançou iniciativas positivas como os programas de contra-mensagem e esforços para envolver os jovens por meio de diferentes planos de extensão comunitários liderados pela polícia.

O país vem sofrendo críticas por expandir em horas a obrigatoriedade de aula de islã e mesmo em escolas voltadas para etnias com outros costumes, como a chinesa e a indiana. Para muitos, essa medida está aumentando as diferenças étnicas no país e criando mais extremismo.

Nas Filipinas, o relatório de terrorismo apresentou uma visão grave do desafio contraterrorismo do país: atentados suicidas. Em 2018, o país formulou um Plano de Ação Nacional (NAP) sobre contraterrorismo. Como na Indonésia e na Malásia, os militares do país trabalharam com as partes interessadas locais para encorajar deserções desses grupos e criaram planos para reabilita-los.
Grupos terroristas islâmicos e separatistas estão em todos os países do bloco, a região de Patani, no sul da Tailândia é instável devido aos grupos com ligações com o Estado Islâmico. Camboja, Vietnã e Laos possuem suas leis antiterrorismo e forças especiais sobre o tema, mas não apresentam grandes problemas ou grupos armados, talvez já tenham “gasto” todo esse potencial em mais de 100 anos de guerras contra invasores externos.

Mianmar tem a questão mais conhecida internacionalmente no momento, os refugiados Rohingya em Rakhine, origem do maior campo de refugiados do mundo em Bangladesh. O país de maioria budista enfrenta diversas questões com os muçulmanos locais que geram uma série de acusações de genocídio de um lado e de ataque terrorista contra população civil do outro.
O sultanato do Brunei é um grande polo de estabilidade na região, até por seu tamanho diminuto e grande reserva de petróleo, permitindo que sua população tenha um grande estado de bem-estar social, mas isso não impede que não tenham problemas. Em 2017, o país deportou quatro indonésios suspeitos de ligação com o EI.

Assim como a antiga Indochina, a aproximação econômica e geográfica com países que possuem a sombra do terrorismo em seu território, faz de Cingapura e do Brunei nações em alerta constante sobre o tema mesmo sem reportar incidentes. A geografia também explica em parte o problema do terrorismo nos três países mais afetados, a Indonésia compreende uma região de 17.508 ilhas, a Malásia 878 e as Filipinas 7107.

O relatório conclui que somente regionalmente e de forma integrada os países do sudeste asiático terão êxito no combate ao terrorismo, e que o foco na ajuda comunitária pode trazer bons frutos.
O documento oferece uma prévia do papel proeminente de Washington na “Guerra ao Terror” globalmente. Também indica à comunidade global que os Estados Unidos mantêm várias coalizões internacionais de base ampla, o que reforça a narrativa de que a participação de Washington é necessária para derrotar o terrorismo globalmente.

Os Estados Unidos usam relatórios como esse para colocar pressão diplomática e militar sobre países cujos regimes, políticas ou localizações criam algum desafio para a segurança e os interesses econômicos do país. No entanto, o documento não examina o papel de Washington no apoio a grupos extremistas em certas zonas de conflito, em 2018 uma equipe de investigadores das Nações Unidas apresentou um relatório devastador em Genebra, detalhando como os EUA foram cúmplices em crimes de guerra no Iêmen por causa das vendas contínuas de armas e apoio de inteligência aos aliados sauditas.

 

Referências

What does the US State Department terrorism report say about its stance in Southeast Asia?

How is Malaysia’s education system dividing the country along religious and ethnic lines?

https://www.reuters.com/article/us-indonesia-china/indonesia-muslim-groups-deny-china-lobbying-sways-views-on-uighurs-idUSKBN1YL19O