A nova parceria Timor-Leste e China

Desde que se tornou um novo Estado em 2002, a abordagem da política externa de Timor-Leste tem sido impulsionada pela dupla exigência de garantir sua sobrevivência e afirmar a independência política. As tensões entre dependência e independência refletem-se nos esforços de Dili para garantir a soberania do Estado através das suas relações internacionais, política de Defesa e estratégia de desenvolvimento.

As pequenas nações do mundo estão limitadas pelo que podem alcançar cenário internacional e têm poucas oportunidades de atuação. O interesse nacional central de Timor-Leste é a sobrevivência e deve usar a política externa como forma de negociar as suas vulnerabilidades e inseguranças internas. A questão é como maximizar suas capacidades e diminuir sua dependência com tamanhas restrições de negociações e possibilidades.

 

China

Mês passado, Timor-Leste e China aprofundaram suas relações bilaterais e se tornaram “parceria estratégica abrangente”. Muitos especularam sobre o que o acordo significa para a situação política e de segurança na Ásia-Pacífico como um todo, principalmente para a Austrália, que além de vizinha próxima de Timor-Leste, atualmente tem péssimas relações com Pequim.

Para muitos analistas e canais de notícias, Dili deixou a Austrália em segundo plano, como se a melhora no relacionamento com a Pequim fosse automaticamente diminuição com Camberra. Um jogo de soma zero.

O que ajuda a fomentar esse temor foi um controverso acordo de segurança com a China em 2022. Em um arito dele diz que “as duas nações concordaram em melhorar o intercâmbio militar de alto nível, fortalecer a cooperação em áreas como treinamento de pessoal, tecnologia de equipamentos, realização de exercícios e treinamentos conjuntos”. Para o ocidente isso é visto como um movimento similar ao das Ilhas Salomão que foi “cooptada pela China” no jogo de influência.

 

Austrália

O Timor-Leste tem uma Parceria Estratégica e de Desenvolvimento com a Austrália para apoiar negócios nos setores de comércio, turismo e agricultura, desenvolvimento humano e diversificação económica. Díli também possui um Acordo da Millennium Challenge Corporation (uma agência de ajuda externa dos Estados Unidos criada pelo Congresso em 2004. ) no valor de US 484 mi para melhorar o setor da água e de saneamento no país.

No setor de Defesa há também um acordo bilateral entre as partes. No ano de 2001 foi criado centrando-se no desenvolvimento de capacidades em política estratégica, segurança marítima e competências de infantaria.

Asean

Para além da Austrália, deve-se considerar também outra potência regional com profundas relações com o Timor: A Indonésia.

Não por acaso, Jacarta tem sido a grande patrocinadora da entrada do país na Asean, tudo indica que a visão de longo prazo tem sido o norte desse movimento.

Colocar a jovem nação como 11º membro da Asean coloca automaticamente um certo freio na aproximação rápida com Pequim, e de certa forma, com Camberra também. E claro, aprofunda laços com seus dez vizinhos regionais.

Portanto, é mais do que necessário para a Asean atrair esse parceiro local a fim fortalecer a neutralidade do sudeste asiático diante da rivalidade das grandes potências.

A importância que Dili dá para a Asean tem sido reforçada por declarações do Primeiro-Ministro Xanana Gusmão que tem nomeado diretamente Indonésia, Cingapura e Malásia quando menciona a aproximação com a China. O Presidente indonésio, Joko “Jokowi” Widodo, espera que Timor-Leste seja aceite como membro de pleno direito da ASEAN antes de terminar o seu mandato em Outubro do próximo ano.

Timor-Leste

Nesta situação geopolítica cada vez mais complexa, a margem de manobra é curta e qualquer assinatura pode ser interpretada erroneamente, como tem sido o caso da aproximação Timor-China.

A visão do Timor-Leste é bastante diferente, ao longo dos anos, a política externa de Díli tem sido orientada pelo objetivo de relações colaborativas e amigáveis ​​com os países vizinhos imediatos e aqueles que estão além, para garantir a sobrevivência e o desenvolvimento do jovem país

O Primeiro-Ministro Xanana Gusmão disse que “para Timor-Leste não há aliados nem inimigos; todos serão únicos e somente amigos.”

Economia

Nos últimos 15 anos ou mais, Timor-Leste tem dependido principalmente do dinheiro dos seus recursos petrolíferos para desenvolver a economia. Em 2020, dos 508,5 milhões de dólares exportados, 80% vieram das receitas do petróleo, desde a década de 2000, as receitas dos hidrocarbonetos representaram uma média de 40 % do PIB anual do país.

Após 20 anos de independência, o Timor-Leste continua a enfrentar um dilema em que a sua visão para o desenvolvimento económico é limitada pela incapacidade de se afastar da dependência dos recursos petrolíferos.

Embora se entenda que uma economia dependente do petróleo não é sustentável, muitos no país acreditam que o dinheiro do petróleo é o catalisador para alcançar a diversificação económica.

Entre 2008 a 2021, Dili importou bens no valor de US 7,2 bi e exportou apenas res US613,4 mi, um déficit crônico da balança comercial.

Outros dados socioeconômicos importantes para a reflexão são: 71% dos 1,3 milhões de habitantes do país vivem nas zonas rurais, com uma alta taxa de alfabetização, cerca de 94% entre os jovens (15 a 24 anos de idade) nas áreas urbanas, e 84,1% das rurais.

No entanto, apenas 16,8% da força de trabalho iniciou e/ou concluiu o ensino superior, demonstrando um baixo nível de escolaridade no país, apesar do sucesso na alfabetização.

Dos US 7,2 bi em importações, 29% vieram da Indonésia, 12% de Singapura, 10% da China, e Vietnã e Malásia com cerca de 5% cada.

 

Conclusão

Sendo um país que emergiu recentemente e após um conflito de longa duração, o Timor-Leste enfrenta um desafio profundo de desenvolvimento. Portanto, explora todas as opções disponíveis para alcançar o desenvolvimento, o que inclui obviamente a construção de parcerias com países como a Austrália e a China.

A emulação de uma bipolarização aos moldes da Guerra Fria suscita inúmeras análises excludentes, no entanto, a realidade é mais complexa e a maior prova viva é a tão desejada entrada na Asean que Dili almeja há anos e anos.

O governo tem enfatizado continuamente a importância do aprimoramento dos setores produtivos (particularmente o turismo e a agricultura) e tem feito destes setores uma prioridade na sua tentativa de abrir um caminho que conduza à diversificação económica. Talvez a maior limitação seja a sua incapacidade de garantir de forma independente a sua própria segurança.

 

 

Referências

 

Conheça mais o Timor-Leste

A pobreza e os seus efeitos na vida dos cidadãos em Timor-Leste

https://www.thejakartapost.com/opinion/2023/10/06/indonesia-australia-split-over-timor-leste-china-strategic-partnership.html

https://thediplomat.com/2023/10/how-timor-leste-escaped-the-political-resource-curse/

https://www.cambridge.org/core/books/abs/postcolonial-security-dilemma/timorlestes-aspirational-foreign-policy/B484E3578D79D45280A8CEC08C6DFD67

https://thediplomat.com/2023/10/what-did-timor-leste-sign-a-comprehensive-strategic-partnership-with-china/

 

 

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