A Ilha de Pápua
Segunda maior ilha do mundo, ficando atrás somente da Groelândia, com 2.400 km de comprimento (de noroeste a sudeste) e cerca de 650 km de largura em sua parte mais larga, Pápua é lar de mais de 700 idiomas e diversas etnias. O terreno é montanhoso e coberto de floresta tropical, e abriga uma grande variedade de espécies de plantas e animais, muitas das quais são endêmicas da ilha. Localizada no extremo leste do sudeste asiático (província mais ao leste da Indonésia), a ilha de Pápua, também conhecida como Nova Guiné, tem sido notícia nos grandes jornais do mundo por conta de atentados, separatismos e agora sequestro de aeronave.
Pápua Nova guiné
Também chamada de “gigante do Pacífico”, Papua Nova Guiné tem o dobro de pessoas e terra do que todas as outras ilhas do Pacífico juntas (cerca de 8 milhões). Mais rica que seus vizinhos em minerais, produção agrícola, diversidade de idiomas, culturas e flora e fauna sempre foi cobiçada pelos colonizadores europeus. Papua e Pápua Nova Guiné costumavam ser entidades separadas já antes da chegada dos europeus pelo sultanato de Tidore por cerca de 250 anos. Em 1885, a Alemanha anexou a costa norte “Nova Guiné” e a Grã-Bretanha anexou as regiões sul.
Em 1906, a Grã-Bretanha transferiu o Território de Papua para a Austrália e, na Primeira Guerra Mundial, a Austrália invadiu a Nova Guiné Alemã e assumiu o controle sob mandato de tutela da Liga das Nações em 1945. Em 1949 eles se tornaram um – Papua Nova Guiné – e alcançaram a independência em 1975. Desde então uma das grandes dificuldades é manter as centenas de povos, línguas e costumes sob a mesma bandeira política, cultural e linguística como manda o conceito de Estado-nação.
Um exemplo é o caso da região de Bougainville, entre 1988 e 1998 houve uma guerra civil com idas e vindas do novo governo central autônomo com uma região chamada Bougainviile que pedia independência. Em 2019 uma votação não vinculativa foi feita e a população decidiu se separar de Pápua com mais de 98% dos votos. O governo central não é obrigado a acatar, mas pela grande aceitação se vê obrigado a negociar. Para complicar, geograficamente faria mais sentido que a região pertencesse às Ilhas de Salomão do que propriamente à Pápua, são resquícios da colonização europeia.
A partir de 1970, grandes descobertas minerais transformaram a economia de Papua Nova Guiné de dependente de colheitas tropicais para baseada em minerais para a maior parte de suas exportações. Grandes depósitos de ouro e cobre levaram a grandes desenvolvimentos em Panguna em Bougainville, o que complica ainda mais a história.
Papua Nova Guiné tem uma balança comercial positiva e as reservas estrangeiras crescem desde 2005. Os principais destinos das exportações, principalmente ouro e cobre, são Austrália , Japão e China . A Austrália forneceu consistentemente quase metade das importações do país nas décadas seguintes à independência, embora essa proporção tenha diminuído para cerca de um terço no início do século XXI. As exportações de ouro geralmente levaram o comércio com a Austrália a um superávit. As principais importações incluem máquinas e equipamentos de transporte, petróleo refinado e alimentos.
O país é uma monarquia constitucional e membro da Commonwealth . O monarca britânico, representado por um governador-geral, é o chefe de Estado e o primeiro-ministro é o chefe de governo. O Parlamento Nacional unicameral tem 111 membros eleitos para mandatos de cinco anos. O Parlamento nomeia o governador-geral, que é então nomeado pelo monarca britânico. O Parlamento também elege o primeiro-ministro , que por sua vez nomeia os ministros do Conselho Executivo Nacional (gabinete).
Em suma, os grandes problemas do país são:
– Corrupção: A corrupção tem sido um problema significativo com alegações de suborno e peculato envolvendo funcionários do governo e políticos. Isso levou à desconfiança pública do sistema político e contribuiu para a instabilidade política.
– Violência eleitoral: As eleições foram muitas vezes marcadas por violência e alegações de fraudes entre os principais candidatos, o que muitas vezes deságua em confrontos nas ruas.
– Desafios de liderança: Muitas mudanças de governo ao longo dos anos, divergências entre partidos políticos e coalizões dos governos.
– Conflitos regionais: Um país diverso com muitos grupos étnicos e linguísticos diferentes com conflitos regionais que se espalharam para a política nacional. Por exemplo, o conflito entre o governo e rebeldes separatistas na região insular de Bougainville.
– Desafios econômicos: Altos níveis de pobreza, desemprego e desigualdade. Esses desafios contribuíram para a agitação social e a instabilidade política, além de alimentar a corrupção e outras formas de má conduta política.
Nova Guine Holandesa (Indonésia)
Comerciantes malaios e possivelmente chineses levaram espólios e alguns escravos para o oeste da Nova Guiné por centenas de anos. O primeiro visitante europeu pode ter sido Jorge de Meneses, que possivelmente desembarcou na ilha em 1526-1527 a caminho das Molucas. No entanto, foi um holandês que reivindicou a metade ocidental da ilha como parte das Índias Orientais Holandesas em 1828; seu controle permaneceu nominal até 1898, quando seus primeiros postos administrativos permanentes foram estabelecidos.
No pós-guerra, a metade ocidental da ilha, então conhecida como Irian Barat, foi devolvida ao controle holandês. A Indonésia tornou-se independente em 1949 e assumiu o controle da região à força em 1963. Um plebiscito foi realizado em 1969 para decidir o futuro de Irian Barat; como resultado, foi anexado à Indonésia.
O “Ato de Livre Escolha”, também chamado pela população local de “Ato sem escolha”, foi o plebiscito realizado no dia 2 de agosto de 1969 em que 1025 pessoas votaram a favor da unificação da região à Indonésia e que foi posteriormente reconhecido pelas Nações Unidas. Além de ser complicado realizar uma votação sob ocupação militar de um ditador militar, apenas anciões de aldeias votaram, a população passou bem longe do poder de escolha o que desencadeou em diversos grupos separatistas, como o Movimento Papua Livre.
Uma organização fundada ainda em 1965 que reivindica a independência de toda parte ocidental da ilha da Indonésia. A organização e o movimento independentista não são apoiados por muita gente indonésia residente na província, mas tem simpatia e o apoio de grande número de aborígenes papuanos que se consideram alheios a qualquer vínculo indonésio a alegam viver sob uma ocupação militar.
Acontece que o grupo tem um braço armado chamado Exército de Libertação Nacional da Papua Ocidental que vem aumentando suas ações nos últimos anos. Em 2021, quatro militares indonésios foram mortos durante um ataque a um posto militar em uma região de conflito. Dezenas de homens invadiram um posto policial e atacaram seis soldados com flechas, facões e outras armas básicas.
Agora o grupo fez um piloto neozelandês de refém e ameaça matá-lo se o governo indonésio enviar tropas terrestres ou aéreas para a região. Os separatistas consideram os trabalhadores civis como forasteiros que às vezes espionam para o governo indonésio. A região é montanhosa e o acesso muitas vezes é feito por pequenas aeronaves. Em 2017 nasceu o chamado Exército Revolucionário da Papua Ocidental, um grupo rebelde oficialmente voltado à luta armada que tem preocupado o governo federal e acredita-se que seja uma ramificação do Exército de Libertação Nacional da Papua Ocidental, que é um grupo político.
Com frequência ocorre também decisões politicas do governo central que irritam os papuásios, como a feita pelo presidente Widodo em agosto do ano passado quando alterou o número de províncias da região. O movimento foi entendido como o clássico “dividir pra governar”, principalmente porque essa mudança isola ainda mais os povos das montanhas, grande foco de resistência atual. Com 323.370 quilômetros quadrados, a província de Papua era de longe a maior da Indonésia, aproximadamente do tamanho da Noruega e com uma população de apenas 4,3 milhões. Cerca de metade dessas pessoas são migrantes de outras ilhas que se estabeleceram principalmente em áreas de planície. De acordo com o Bureau of Statistics, a renda da província de Papua pré-divisão no ano passado foi de 14,7 trilhões de rupias, ou US$ 991,5 milhões, ficando em quinto lugar atrás de Jacarta (Rp 72,18 trilhões), West Java (Rp 41,47 trilhões), East Java ( Rp 31,2 trilhões) e Java Central (Rp 26,7 trilhões).
O grande medo do governo federal é que Pápua tenha o mesmo destino do Timor-Leste, movimentos rebeldes armados com organização e força suficientes para transformar a região em uma guerra civil sangrenta a ponto da ONU resolver intervir. Como visto acima, a província é fonte de muitas riquezas, a indonésia não vai aceitar abrir mão de seu controle.
Tanto é que logo após o anúncio dessa decisão seis soldados da elite do exército indonésio foram presos por terem matado e mutilado quatro indígenas suspeitos de estarem negociando armas por ali. Um ciclo de violência de muitos anos, em março, atiradores rebeldes mataram oito técnicos que consertavam uma torre remota de telecomunicações. Em dezembro de 2018, pelo menos 31 trabalhadores da construção civil e um soldado foram mortos em um dos piores ataques da província, e assim segue desde os anos 60 contra a administração de Jacarta.
Entrevista
Trecho da entrevista de Benny Wenda, líder político e presidente do “Movimento Unido de Libertação Nacional de Pápua Ocidental”.
Em Papua Ocidental temos três organizações políticas principais, a Coalizão Nacional para a Libertação da Papua Ocidental, o Parlamento Nacional de Papua Ocidental e a República Federal de Papua Ocidental. Assim, os três principais partidos políticos da Papua Ocidental se uniram. Em cinquenta anos nunca nos unimos porque a Indonésia estava usando essa vantagem de dividir e conquistar, e dividir o mundo.
Em 2014 formamos o Movimento de Libertação Unida, em 2017, atualizamos nossas organizações para elevar nossa posição como presidente, tornando-se presidente do Movimento de Libertação Unida. E então, em 2020, o Conselho de Papua Ocidental aprovou nossa Constituição pela primeira vez.
Também em 2020, anunciamos nosso governo provisório, essa constituição me permitiu anunciar o governo provisório. E então, em maio, anunciamos o gabinete, depois, no ano passado, em Glasgow, anunciamos nossa visão de um estado verde. Então temos tudo completo. Portanto, isso é rejeitar a ocupação ilegal da Papua Ocidental pela Indonésia.
Não obedecemos às regras indonésias na Papua Ocidental. Temos nosso território, nossa própria Constituição, temos nosso governo, temos nossa visão, temos nosso gabinete, temos um poder legislativo e judiciário. Também temos um primeiro-ministro, Edison Waromi, na Papua Ocidental. Ele chefia o gabinete na Papua Ocidental. Nossa independência foi roubada. A Indonésia reivindicou ilegalmente nosso território.
Luta armada: Costumávamos fazer isso em 1970-1980. E em 2000, sob minha liderança na época em Papua Ocidental, discutimos uma maneira pacífica de nos envolvermos com o governo indonésio. Mas eles não gostaram e me prenderam. Fiquei preso por quase 25 anos.
Cenário Geopolítico
A Oceania é uma região vasta e diversa, compreendendo milhares de ilhas e territórios ao longo do Oceano Pacífico, atual fronteira de disputa geopolítica entre as duas maiores potências mundiais do momento, China e EUA. Aqui estão alguns dos principais interesses geopolíticos na Oceania:
Segurança: A região do Pacífico é de importância geográfica estratégica, é a principal saída para o comércio mundial e a China vem aumentando sua presença militar na região, o que tem preocupado os Estados Unidos e seus aliados.
Recursos: Região rica em recursos naturais e pouco explorada. Países como China, Japão e Coreia do Sul têm investido pesadamente, aumentando a competição e desconfiança entre eles.
Influência: Países como China e Estados Unidos têm interesse em expandir sua influência na região do Pacífico, tradicionalmente dominada por Austrália e Nova Zelândia, um exemplo disso é ver o ocidente reabrindo embaixadas nas ilhas da região e a China se tornando a principal parceira comercial de muitas dessas nações.
Mudanças climáticas: a Oceania é particularmente vulnerável aos impactos das mudanças climáticas, incluindo o aumento do nível do mar, desastres naturais mais frequentes e graves e branqueamento de corais. Isso levou a uma maior atenção e investimento de países e organizações que estão preocupados com as consequências ambientais e humanitárias das mudanças climáticas. Vários países correm o risco de desaparecer nas próximas décadas.
Autodeterminação: Finalmente, muitas nações insulares do Pacífico ainda lutam pela autodeterminação e independência. Existem disputas em andamento sobre territórios como Papua Ocidental, Nova Caledônia e Ilhas Cook, que levaram a tensões e conflitos na região frutos do neocolonialismo.
Conclusão
Os papuásios possuem etnia, língua, cultura, hábitos e até religião (maioria católica) distinta dos indonésios, o que torna muito difícil uma conciliação entre as partes, por outro lado, Jacarta olha para as mesmas instabilidades para a outra parte da ilha, gestada pelas pessoas locais e vê os memos problemas: violência política, eleitoral, violação dos Direitos Humanos, pobreza extrema, desigualdade e grupos rebeldes armados e pacíficos com pautas diversas. Nesse sentido, Pápua não pode ser comparada com o Timor-Leste, seu caso é mais complexo, desafiador e por promover mais diversidade e riquezas naturais, portanto, mais importante para o governo central, que tenta diminuir os confrontos através de políticas de melhoras sociais.
A luta por autodeterminação nessa região do globo é um dos maiores exemplos do neocolonialismo que é ignorado em muitas análises, dezenas de bases militares destroem qualquer movimento local que luta pelo simples direito de autogerir-se. Apesar de estar em outra região, Chagos é o exemplo mais recente desse movimento. Em 2019, a ONU deu parecer favorável às Ilhas Mauricio que entrou na corte pedido a saída dos ingleses na região de Chagos, que pelo direito internacional é seu, e mesmo assim, os ingleses ignoraram o órgão multilateral e continuam com sua base militar por lá por considerar uma região estratégica para seus interesses.
A Ilha de Papua é uma espécie de microcosmo de tudo que foi dito acima, complexa geograficamente por estar bem na fronteira entre sudeste asiático e Oceania, geopoliticamente por estar dividida entre dois tipos de neocolonialismos distintos, etnicamente porque com séculos de interferência não há o menor senso de união sequer entre metade da ilha e economicamente por seus recursos naturais sendo alvo de diversos países com interesses e alianças distintos.
referências
West Papua National Liberation Army release first footage of captured NZ pilot
https://www.britannica.com/place/Papua-New-Guinea/Languages
https://www.rnz.co.nz/collections/nff-png/about-png#:~:text=Papua%20and%20New%20Guinea%20used,the%20southern%20regions%20’Papua’.
https://www.descifrandolaguerra.es/benny-wenda-y-oridek-ap-lideres-de-papua-occidental-nuestra-independencia-fue-robada-indonesia-reclamo-nuestro-territorio-ilegalmente/
https://thediplomat.com/2022/08/indonesian-troops-accused-of-killing-mutilating-4-papuans/
https://asiatimes.com/2022/08/carving-up-indonesias-papua-province/
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