ASEAN #3 – O Camboja na Guerra Fria
Após a ocupação japonesa na Segunda Guerra Mundial, o Camboja ganhou a independência total da França em 1953 com Norodom Sihanouk como Rei adotando a política de neutralidade no contexto da Guerra Fria. Em 2 de março de 1955, por motivos não de todo esclarecidos, Sihanouk abdicou em favor de seu pai, Norodom Suramarit, obtendo o cargo de primeiro-ministro e controlando, de fato, o inteiro aparato governamental. Com o falecimento do pai em 1960, venceu as eleições e se tornou Chefe de Estado.
Em maio de 1965, o país encerrou as relações diplomáticas com os Estados Unidos. Ao fazer isso, ele alterou sua estrita adesão à neutralidade na política externa para se alinhar à República Popular da China (RPC).
Ele estava em agindo como resposta a um artigo depreciativo de Bernard Krisher para a Newsweek que acusava sua mãe, a rainha Sisowath Kossamak, de comandar um bordel, e também contra um ataque aéreo de um avião americano em uma vila do país que matou um adolescente e feriu outros. O alinhamento com a China criou impactos de curto e longo prazo na política externa do Camboja. As autoridades chinesas pressionaram o príncipe a permitir que as linhas de abastecimento dos Vietcongs passassem pelos portos do país. Isso acabou sendo um convite não oficial para as operações de bombardeiros americanos B-52 Stratofortress.
O país se viu isolado do mundo, quando logo em seguida, estourou em 1965 a Grande Revolução Cultural do Proletariado na China. O Império do Meio teve uma reviravolta em sua política externa e o príncipe ficou cada vez mais desconfiado de suas intenções após rumores de que Pequim estava exportando secretamente suas ideias revolucionárias para o Camboja. Perder o apoio de ambos seria suicídio diplomático e financeiro para o país, e por isso, o príncipe liberou incursões americanas “sob certas condições”. Não adiantou e, as insatisfações internas foram aumentando. Lon Nol liderando a direita cambojana deram um Golpe de Estado em 1970. O então Chefe de Estado, o príncipe Norodom Sihanouk, foi removido do cargo e poderes de emergência dados a Lon Nol, que deu fim ao Camboja como Reino e instaurou a República Khmer, que durou apenas 5 anos.
Esta nova República se alinhou aos Estados Unidos e ao Vietnã do Sul contra o Vietnã do Norte e o Vietcong, cedeu seu território para bases estadunidenses e mergulhou no conflito contra os guerrilheiros do Khmer Vermelho, liderados por Pol Pot. Toneladas de bombas americanas foram despejadas no país fazendo com que aumentasse a simpatia dos cambojanos ao Khmer. Há estudos que apontam que ainda hoje o país sente reflexos de gases liberados nesse período.

O enfraquecimento dos Estados Unidos na Guerra derrubou o governo Lon Nol em 1975, que se refugiou no país e morreu no Havaí em 1985. Já o Khmer Vermelho, que teve apoio moral e militar da China, tomou o poder e o país passou a se chamar Kampuchea Democrático, um governo que também durou pouco, apenas 4 anos. Período esse também conhecido como Genocídio Cambojano, quando foi imposto uma utopia agrária que promoveu o esvaziamento das cidades e obrigou a população a instalar-se em fazendas coletivas, onde devia trabalhar durante quase todo o dia. Muitas pessoas migravam constantemente por ordens do Khmer Vermelho e eram obrigadas a realizar longas caminhadas. Estima-se que 1,5 milhão de pessoas tenham morrido.

Em 8 de janeiro de 1979, foi estabelecida a República Popular do Kampuchea (pró-Vietnã) , marcando o início de uma ocupação vietnamita de dez anos. No entanto, ao longo desse período, o Kampuchea Democrático do Khmer Vermelho continuou a ser reconhecido pelas Nações Unidas como o governo legítimo.
Um acordo de partilha de poder foi feito em 1990 patrocinado pela Austrália, já nos últimos suspiros da Guerra Fria, seguido por um governo de coalizão em 1993 entre os dois principais partidos, o partido do príncipe de um lado e um simpático ao período do Kampuchea Democrático do outro.
Ao tentar se alinhar com uma potência, ainda que fatores internos e externos como o contexto da Guerra Fria e o pouco tempo do Camboja como nação independente tenham contribuído, o país entrou em uma espiral de violência de 25 anos. Há duas lições centrais nesse breve período da história cambojana. Primeiro, por ser um pequeno estado, o Camboja nunca deve depender de um patrono estrangeiro, porque isso o expõe ao risco de ser submetido à poderosa vontade nações maiores e mais poderosos. Segundo, não há amigos nem inimigos permanentes na política internacional, apenas interesses, a diplomacia deve ser sempre pautada pelo pragmatismo.
