Relações internacionais da América Latina: velhos e novos paradigmas.

A obra tem os anos 1930 como marco cronológico inicial, momento em que os países latino-americanos abandonam o paradigma liberal-conservador e esboçam o Estado desenvolvimentista, indo até os anos 1990, quando se observa a emergência do paradigma neoliberal, cuja aceitação passiva pelas elites latino-americanas é fortemente criticada pelo autor.

O livro está dividido em três partes principais. Na primeira busca compreender a origem do desenvolvimentismo latino-americano (1930-1947) − quando o continente toma o rumo do processo de modernização econômica ainda que com intensidades nacionais variadas −, até seu apogeu nos anos 70.

A segunda parte do livro de Amado Luiz Cervo trata da política externa da Argentina, do Brasil e da Venezuela de 1947 até 1986, em que as relações entre esses países passam por tendências obstrucionistas e, alternativamente, por períodos de profícua cooperação. Analisa, igualmente, a conjuntura da construção dos eixos bilaterais entre Brasil e Venezuela e Brasil e Argentina a partir de 1980 que, segundo Cervo, resultaria tristemente em uma integração com um perfil meramente comercialista ao sul ou em simples abandono ao norte.

Na terceira e última parte da obra, o autor faz um balanço dos primeiros impactos das experiências vividas pelos países latino-americanos, entre 1889-90 e 2001, ao optarem pelo paradigma neoliberal de relações internacionais.

A crise de 29 fez com que os países capitalistas mais avançados se fechassem e a América Latina tomou um rumo de modernização econômica, com mais grupos participantes e atuantes aumento da população urbana e burguesia nacional), fazendo com que toda a região ficasse agregasse à diplomacia. Mediante revoluções, eleições ou golpe de Estado, os velhos donos do poder cederam, dando lugares para uma nova estrutura de poder.

A divisão do mundo em blocos antagônicos, permitiu que a região possuísse maior poder de barganha, de 30 a 33 o Brasil assinou mais de 300 tratados de reciprocidade.

Na segunda metade da década de 30, o comercio da América Latina esteve em forma crescente, se comparado ao resto do mundo. Nessa época o Brasil passou a se firmar em três princípios:

1 – Aproveitar a rivalidade dos blocos antagônicos para promover competição e aumentar seu poder de barganha

2 – Manter a política de comércio liberal alinhada com os EUA

3 – Aumentar intercâmbio com Alemanha e Itália

O contexto histórico da Grande Guerra modificou as relações comerciais a favor da América Latina, além das exportações para a Europa, a diplomacia Roosevelt focava na região. Enquanto a Argentina sofria um duro golpe da Grã-Bretanha ao se declarar neutra no conflito.

Os movimentos da diplomacia latino-americana na Grande Depressão e da Segunda Guerra indicam que a região agia pragmaticamente a fim de obter lucros e expandir suas áreas de influência já com setores da burguesia pressionando seus governos para novos mercados.Em suma, dos anos 30 a 45, o bloco apresentou características comuns de um Estado desenvolvimentista.

Em 1947, ano do plano Marshall para construção da Europa, a América Latina criou o TIAR – Tratado interamericano de Assistência Reciproca, focando na relação com os EUA, cortando laços com a U.R.S.S e caçando partidos comunistas em seus países.

Em 1957 jornais Venezuelanos criticam a ideia de criar uma mercado comum na região. Nos anos, 60 Brasil e Argentina tinham boas relações comerciais que puxaram Paraguai, Uruguai, Chile e Bolívia para si. Essa espécie de bloco aumentaria a capacidade de negociação frente ao mundo bipolar. JK foi criticado pelas elites por romper com o FMI em 1959, mesmo sendo advertido sobre o tamanho da influência do órgão no país, Frondizi cai em 1962, interrompendo esse novo ciclo.

Também em 1962, Cuba foi expulsa da OEA por 14 votos, o que agravou a união latino-americana, já que Brasil, Argentina, México, Bolívia, e Equador votaram contra a expulsão. Nesse mesmo ano, Argentina e Peru sofreram golpes militares.

A Criação da Alalc (Associação Latino-americana de Livre comércio) em 1960, tinha como membros: Argentina, Brasil, Chile, México, Paraguai, Peru, e Uruguai. Em 1966 a Argentina defendia que precisava priorizar sua própria indústria, criando crise no bloco. Os governos latinos, até os anos 70, davam pouca importância para o desenvolvimento Ciência e Tecnologia.

No início dos anos 80 observou-se uma maior integração. A recessão, a inflação, o endividamento, a Guerra das Maldivas e o processo de redemocratização, foram grande fatores para esse movimento de virada para uma maior união latino-americana.

O Brasil reconhecia as dificuldades de se pensar como bloco, e priorizou suas relações com a Venezuela e mais ainda com a Argentina.

De 1980 a 1986 foi um período forte da ideia de Estado logístico e desenvolvimentista. Nesse mesmo período, desenvolveu-se o conceito de “crescimento sustentável”, dando uma importância maior para a região, que culminou na Rio 92. O processo de integração regional aumentou no início da década de 1990. Na América do Sul, em 26 de março de 1991, os presidentes do Brasil, da Argentina, do Paraguai e do Uruguai assinaram o Tratado de Assunção, que criou o Mercosul.

Com a chegada da década de 90, viu-se também, o fim do período desenvolvimentista e a chegada do liberalismo, representado na queda do Muro de Berlim e da “vitória” do capitalismo sob o comunismo. A chamada Globalização dos anos 90 pressupunha, além da democracia e do capitalismo, a defesa dos Direitos Humanos, liberalismo econômico, responsabilidade social e do meio ambiente.

Os Argentinos denominaram-se de Estado Normal, alegando não fazer parte de um viés ideológico propriamente dito. Novos grupos políticos surgiram com essa nova concepção de mundo, acabando com décadas de organizações tradicionais no poder. O Brasil foi o país que mais demorou em assumir esse estágio.

No fim do grande ciclo desenvolvimentista, a América Latina tinha os quatro fatores para de fato entrar na competição global: mercado, capital, grandes empresas e tecnologia própria. A região optou pela volta do neoliberalismo, poderia recusar como Portugal e Espanha, e por isso, teve sua base desmontada.

Foi um modelo adotado pelos Estados latino-americanos a partir de meados dos anos 1930, após a crise econômica nos Estados Unidos. Ainda segundo o autor, introduziu-se, na América Latina, em substituição ao desenvolvimentismo, o paradigma do Estado Normal, segundo o qual os Estados assumiriam um papel subserviente, dando seu consentimento à matriz do sistema internacional (no caso, os Estados Unidos) a fim de tirar proveito disso. Ou seja, o Estado Normal não admitia a ideia de margens de manobra na política internacional para a América Latina.

Por fim, Cervo destaca que não houve uniformidade na intensidade e no ritmo das reformas internas requeridas por essa nova forma de inserção, apesar da América Latina ter demonstrado a maior coerência dentre todas as regiões do mundo na adoção do modelo neoliberal. A Argentina e o Chile, por exemplo, empregaram reformas mais radicais, enquanto o Brasil e a Venezuela não usaram da mesma intensidade e o México procurou vincular-se a América do Norte, por meio do Nafta.

O quadro de insatisfação com as reformas neoliberais fez com se buscasse mudanças políticas em vários países. Políticos que criticavam o neoliberalismo e que integravam partidos de esquerda foram levados ao poder. Foi o caso, por exemplo, de Hugo Chávez na Venezuela e de Lula no Brasil.

Esse foi o cenário pelo qual passou a América Latina na virada do século e que indicava o surgimento de um novo paradigma: o do Estado Logístico. Neste paradigma, a política exterior deveria recuperar sua autonomia decisória; o Estado não teria apenas a função de prover a estabilidade econômica, mas também a de acompanhar a sociedade na realização de seus interesses; em seu escopo final, haveria a superação das assimetrias entre as nações, elevando o patamar nacional ao nível das nações avançadas (CERVO, 2008).