O Golpe virá de baixo

Forças paramilitares, ou milícias, são grupos civis, armados e geralmente com estrutura semelhante à dos militares, mas que não fazem parte do esqueleto oficial do Estado. Esses grupos possuem fins político-partidários, religiosos e/ou ideológicos. Eventualmente, membros de forças paramilitares também fazem parte de forças militares regulares.

Além das famosas forças paramilitares de PMs cariocas (milícias) que estão na mira de investigações bem complicadas de assassinato de políticos e com relações bem próximas aos Bolsonaros, diversas outras vem ganhando força e adeptos.

Ucranizar o Brasil virou o lema por volta de 2015 quando manifestantes ucranianos pró Europa jogaram um político em uma lata de lixo, esse ato era o início da radicalização naquele país. Nesse mesmo cenário de queda do governo pró Rússia, os manifestantes encurralaram 42 manifestantes simpatizantes ao antigo governo na Casa dos Sindicatos de Odessa, e logo após, queimaram o prédio com eles dentro.

Desde então, bandeiras da Ucrânia são vistas aos montes em milhares de perfis das redes. O país é notadamente conhecido por ser um covil de neonazistas, o curioso é que toda essa fúria desaguou em perda de território (Crimeia), um golpe na economia (a Europa não a abraçou devido às cenas assustadoras e a Rússia que era a maior parceira, bloqueou todo tipo de comércio) e em um presidente que pede diálogo com a Rússia, por ser a única saída viável.

Ainda em 2015, viralizou na web os Gladiadores do Altar, grupo de jovens da Igreja Universal, com postura e gritos de guerra iguais ao de um exército comum. Em vídeos no  YouTube, centenas deles se autodenominam como”homens sendo preparados para a obra de Deus”.

O The Intercept denunciou ano passado como funcionários do Google deram aulas sobre algoritmos e treinaram digital influencers da direita para gerar mais visualizações e interferir nas eleições de 2018.

O discurso entrou em todas as camadas sociais. Do pobre ao rico, do jovem ao idoso, há uma ampla adesão na sociedade como um todo aos discursos de ódio e demonização do “outro”. O diálogo não é mais possível, já que o diferente é o inimigo, o contraditório é o demônio a ser neutralizado. A radicalização é o novo normal.

A pandemia foi um grande marco que derrubou o véu do bom senso e da polidez para quem ainda tinha dúvida da intenção desse governo. As declarações e posturas abomináveis do presidente são o ponto de distração, o que acontece na periferia dos seus apoiadores é o que preocupa.

A famosa Sara Winter está chamando adeptos para o “300 do Brasil”, nos melhores moldes sociedades secretas, segundo boatos, há mais de 200 membros já, eles estão sendo alimentados e fazendo treinamentos semelhantes aos militares para algo que ainda não está oficialmente claro, celulares são proibidos nessas reuniões.

Após uma discussão com outro apoiador clássico do neofascismo tupiniquim, Allan dos Santos, ela disse abertamente que está fazendo tudo que manda Olavo de Carvalho, o rei do delírio. O ponto interessante é que nenhum deles tem dinheiro para tal. Há pessoas poderosas, com conhecimento, estratégia e inteligência, ou seja, tudo o que Bolsonaro não tem, por trás disso tudo planejando algo maior.

Voltando às redes sociais, faça o teste: recorde-se de todo policial, civil e militar que você conheça e estude as postagens nas redes dessas pessoas. Veja a alta adesão ao bolsonarismo, as conspirações mais absurdas  e quão constantes são as postagens nesses grupos fomentando o ódio, a discriminação, a violência contra “os bandidos” e a punição física. Essas pessoas ficam 24 horas por dia imersas nesses conteúdos. É essa grande maioria dos membros armados das forças públicas do “baixo clero” que pelo menos nas redes, falam abertamente em defender o Presidente “contra tudo e contra todos”.

Pesquisas mostram que 30% do eleitorado apoia e sempre apoiará o Bolsonaro, o chamado núcleo duro, para fazer uma média “pessimista”, vamos pegar 30% de quem votou nele, o que dá, arredondando para baixo, cerca de 15 milhões de pessoas.

Que desses 15, meio por cento realmente cumpra o que fala, é gente o suficiente para instigar uma verdadeira guerra civil no país. Engana-se quem acha que a hierarquia militar e as Forças Armadas estão no controle da corporação, a era do golpe militar com tanques nas ruas já se foi. Hoje, a crise é antes de mais nada, de representatividade.

Nos EUA, centenas de manifestantes armados invadiram o parlamento do estado de Michigan nesta quinta-feira, 30, para protestar contra a extensão da quarentena. As imagens são assustadoras, dignas de cenários pré-guerras civis, se o Estado resolve dispersar o grupo, o resultado seria catastrófico.

O que se vislumbra é uma sociedade impulsionada pelo ódio e preconceito, que assim como a ucraniana, não consiga pensar a política e a sociedade com o cérebro. Hoje, Bolsonaro e sua trupe assanha esses diversos grupos através de redes sociais, para que saiam às ruas para defendê-lo, imagine o que fariam se ao invés de bandeiras e bonecos infláveis, portassem fuzis e escopetas na Avenida Paulista, na Esplanada dos Ministérios e em Copacabana.

O Brasil já está em um ponto em que o ódio, o extremismo e o desejo por repressão se retroalimentam. O rico, a autoridade, o alto funcionário público, não participam de rupturas, eles têm muito a perder, o golpe virá de baixo.