O cenário social por trás do extremismo budista contra os muçulmanos Rohingyas em Mianmar

Após décadas de regime militar, nasce a democracia em Mianmar. Combalida, polêmica, e ainda dominada por militares: 25% do parlamento deve ser comandado por eles segundo a nova constituição do país. O budismo representa cerca de 80% das 53 milhões de pessoas, enquanto cristianismo fica com 7 e o islamismo apenas 4.

Contexto Histórico

O conflito surge para além da óbvia diferenciação religiosa e social. Durante a Segunda Guerra Mundial na Birmânia (atual Mianmar), os muçulmanos Rohingya, lutaram ao lado dos britânicos, que lhes prometeram um Estado próprio, enfrentando os budistas locais, que eram aliados dos japoneses. Após a independência em 1948, o recém-formado governo de maioria budista negou cidadania aos Rohingyas, sujeitando-os a extensa discriminação sistemática no país.

A onda de violência mais recente remonta ao período democrático. Em junho de 2012, desencadeada por um boato de que uma mulher budista de Rakhine foi estuprada e morta por três muçulmanos Rohingya. A violência que parecia regional tomou outras proporções. Para controlar a situação, o governo declarou um toque de recolher que durou três meses e mobilizou forças de segurança nessa região. Rapidamente ficou notável o tratamento desproporcional das forças estatais contra os muçulmanos.

Entre 2012 e 2016, as autoridades trataram a crise como um problema de lei e ordem, optando pelo uso da força ao invés de alguma resolução de conflitos, criando uma gigante onda de refugiados. Em outubro de 2016, a situação aumentou dramaticamente, quando um novo grupo militante muçulmano, conhecido como Exército de Salvação de Arakan Rohingya (ARSA), supostamente ligado a grupos radicais muçulmanos no Oriente Médio, atacou três postos policiais da guarda de fronteira.

O governo respondeu rapidamente, rotulando o ataque como um ato de terrorismo, para justificar quaisquer ataques indiscriminados a Rohingyas. De acordo com a “Missão Internacional Independente de Apuração dos Fatos em Mianmar” existiram indícios de genocídio, crimes contra a humanidade por parte do governo.  A Conselheira de Estado de Mianmar, Aung San Suu Kyi, apresentou-se pessoalmente no Tribunal Internacional de Justiça (Haia) em Haia para defender seu governo contra a acusação de genocídio, um caso apresentado pela Gâmbia em nome da Organização de Cooperação Islâmica.

 

Contexto Religioso e Político

 

Movimento 969

 

O Movimento 969 é um movimento nacionalista em oposição ao que eles vêem como “a expansão do islã” predominantemente contra o budismo no país. Os três dígitos simbolizam: as virtudes do Buda, as práticas Budistas e a comunidade Budista como um todo.

Nasceu em 1988 em um crescente descontentamento com o cenário da época: crise financeira, falta de liberdade civil e problemas étnicos. Estudantes, monges e defensores da democracia se uniram contra o líder militar do país.

Ne Win assumiu o poder após um golpe militar em março de 1962 e se declarou chefe de estado, ele introduziu o ‘Caminho Birmanês ao Socialismo’. Como era de se esperar, o país tornou-se mais secular, o governo militar socialista dissolveu vários conselhos budistas regionais. Esses protestos de 1988 foram cruelmente reprimidos pelos militares, um estudante morreu, escalonando as revoltas, que foram apoiadas pelas lideranças budistas.

Embora seja retratado como um movimento pacífico e popular dedicado a ‘promover e proteger o budismo’, as críticas se espalharam por seu envolvimento no extremismo religioso violento. Os monges foram proibidos de entrar na política, no entanto, o governo constantemente tentava emplacar “reformas” para “modernizer” o budismo.

O Movimento 969 promoveu uma purificação interna na prática e crença do budismo, ampliando-a ideologicamente e que acabou sendo uma das bases para o ódio aos muçulmanos. Livros e escritos de monges influentes sobre “como ser um bom budista”, e “o melhor budista” ajudaram a criar essa fusão entre religiao, ideologia e política.

Um livro chamado “Preocupando-se com o Desaparecimento da Raça” de 2000, de origem desconhecida e não publicado oficialmente, incentivava o boicote e o afastamento dos budistas aos muçulmanos, tratando-os como potenciais responsáveis pelo fim do budismo no país. O incentivo do fim de relacionamentos sociais, e principalmente de casamento entre membros das duas religões, logo virou um pequeno Apartheid.

Em 2013, Ashin Wirathu tornou-se o líder do grupo, a revista Time o caracterizou como “a face do terror budista”, gradualmente o extremismo e a segregação foram inflados. Dois anos depois, a Liga Nacional pela Democracia foi eleita, um partido com conexões com o grupo e com a elite nacional.

 

Ma Ba Tha

 

Em meio ao cenários das eleições, estava nascendo o Ma Ba Tha, que foi formalmente estabelecido em uma conferência de monges budistas em janeiro de 2014. Como o movimento 969, sua mobilização cresce diante de uma percepção de “ameaça do outro”, misturando discursos sociais, religiosos e políticos.

Desde sua formação, Ma Ba Tha influenciou constantemente as controversas quatro leis (a Lei da Monogamia, a Lei de Conversão Religiosa, a Lei do Casamento Inter-religioso e a Lei de Controle da População) coletivamente conhecidas como “leis de proteção à raça e a religião”. Aprovadas em agosto de 2015 e apoiadas pelos militares (a constituição do páis obriga que um quarta do parlamento seja preenchido com membros do exército, proibindo qualquer mudança sem o aval das Forças Armadas).

As leis proíbem a poligamia, criminalizam a conversão religiosa, impõem restrições legais ao casamento inter-religioso e autorizam as autoridades a adotarem medidas rigorosas para controlar a taxa de natalidade. Para demonstrar adesão, o grupo coletou mais de um milhão de assinaturas de budistas (importante deixar claro) em todo o país.

Nas comunidades budistas de Bamar (onde o estado de Rakhine, epicentro das acusações de genocídio, fica localizado), as intenções do grupo foram mascaradas por diversas atividades filantrópicas. Organizaram uma série de atividades para ajudar os pobres e os doentes, como doações de roupas e medicamentos. Atraindo assim, corações e mentes das comunidades locais.

O Ma Ba Tha foi denunciado como uma associação ilegal em 2016, pela difusão de mensagens de ódio, o que só inflou os discursos dos seus líderes, gerando a proibição formal do grupo em 2017. Nesse mesmo ano é criado o partido politico chamado Associação Dhamma Vansanurakhitta (Fundação de Filantropia Buddha Dhamma), que é basicamente um braço político do grupo.

O que reforça as opiniões de que o ultranacionalismo religioso precisa da ideologia e da política para sobreviver.

 

Conclusão

 

O extremismo religioso não nasce e se mantém sem elementos que funcionem como combustível, como ideologia, história, cultura, prática, normas e símbolos. No caso de Mianmar, o extremismo budista, as ações estatais violentas e como as elites se beneficiam do conflito contra os muçulmanos têm raízes políticas, históricas e estruturais.

A construção do Estado recente, os problemas históricos, as peculiaridade geográficas e tantos outros fatores influenciam mais na modulação da identidade do país do que o simples ato de votar periodicamente em alguns candidatos chamado democracia que o ocidente muitas vezes superestima.

As particularidades das periferias do mundo, como o sudeste asiático, a África e até mesmo a América Latina, devem ser levadas em consideração na construção dessas identidades muito antes do conceito de democracia, voto e separação de poderes. Para que muitos não caiam nas aparências, e assim como Mianmar, fiquem sem uma coisa nem outra. O país não é de fato uma democracia, os militares continuam no poder, muito menos um Estado Democrático de Direito, já que cometeram crimes hediondos em plena era “democrática”.

O objetivo do processo hegemônico de construção de um estado-nação deve ser acabar com políticas discriminatórias internas, resolver conflitos e abrigar todos sob o mesmo teto constitucional para que se sintam parte de um todo mesmo com suas peculiaridades internas de religião, costume, língua e cultura, caso contrário, essa democracia nada mais será do que a legitimação dos crimes que já eram cometidos.