Sudeste asiático – A próxima fronteira do imperialismo

“O poder político é fluxo, mais do que estoque. Para existir precisa ser exercido; precisa se reproduzir e ser acumulado permanentemente. E o ato de conquista é a força originária que instaura e acumula poder”.

J.L.Fiori, O poder global e a nova geopolítica das nações. Boitempo Editorial, São Paulo, 2007, p. 17

 

Pivô para a Ásia

Em 2011, o governo Obama lançou uma política de reequilíbrio no continente asiático, o chamado “Pivô para a Ásia” com base no reconhecimento de que o foco no Oriente Médio havia criado o vácuo Ásia-Pacífico que possibilitou a ascensão da China.

O documento lançado em janeiro de 2012 chamado “Sustaining US Leadership Priorities for 21st Century Defense”, abordava a necessidade de reorientar as atenções estadunidenses na Ásia, sair do Sudoeste (Oriente Médio) e da Ásia-Central para a Ásia-Pacífico. Um documento de Defesa usando o termo “reorientar atenção” deixa muito claro o que está por trás da ideia.

O termo “pivô” indica normalmente um ponto ou eixo em torno do qual gira alguma coisa. Em inglês, no entanto, é admissível usar o termo referindo-se à coisa que gira, transformando o substantivo em verbo: “pivotar”. Foi essa a acepção usada pelo presidente Obama e seu secretário da Defesa Leon Panetta.

Em julho de 2020 ainda no governo Trump um funcionário do governo alegou que “o desafio geopolítico mais significativo desde o fim da Guerra Fria está no teatro Indo-Pacífico” e que um rearranjo militar seria colocado em prática.

Robert O’Brien, conselheiro de segurança nacional do presidente Donald Trump, em um artigo de opinião do Wall Street Journal em junho do mesmo ano: “Para enfrentar os dois competidores de grande potência (China e Rússia) as forças dos EUA devem ser desdobradas no exterior de uma maneira mais avançada e expedicionária do que têm sido nos últimos anos””

Para esse fim, o governo reduzirá sua força permanentemente estacionada na Alemanha de 34.500 soldados para 25.000. Ou seja, ainda em 2020, 9.500 militares saíram da Europa e foram para bases do país no Indo-pacífico.  A presença militar dos EUA na Ásia-Pacífico caiu para 131.000 soldados em 2018, de 184.000 em 1987.

Atualmente está assim :

Texto de José Luis Fiori

Professor do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ e autor de diversos livros.

Durante toda a história do sistema de Estados nacionais criado em torno do século XVII, houve sempre Estados ganhadores e Estados perdedores, e o sistema como um todo foi sempre competitivo, bélico e expansivo. Todos os seus “membros” foram obrigados a competir e fazer guerra para sobreviver nesta verdadeira corrida pelo poder e pela conquista de uma riqueza maior do que a de seus competidores, até porque a acumulação da riqueza se transformou numa peça fundamental da luta pelo poder.

As chamadas “grandes potências” desse sistema estão obrigadas a se expandir permanentemente, aumentando seu poder e sua riqueza, para seguir preservando suas posições. Um mundo sem conflitos entra em estado de entropia, por causa do desaparecimento da própria competição, Que é de onde vem a energia que move todo o sistema que funciona em conjunto como se fosse uma verdadeira máquina de criação de mais poder e de mais riqueza.

A própria “potência líder” ou “hegemônica” precisa seguir expandindo seu poder de forma contínua, para manter sua posição relativa, como já dissemos, mas também para manter vivo o seu poder. O poder dentro deste sistema é fluxo, é conquista, e ele só existe enquanto é exercido, não importa se afinal os vencedores conseguem impor ou não os objetivos imediatos em cada uma de suas guerras. Por mais absurdo que possa parecer, nesse sistema é mais importante que seus Estados líderes façam guerras sucessivas e demonstrem seu poder militar, do que consigam realizar os seus objetivos que são declarados e utilizados para justificar seu exercício sem fim de novas guerras.

O passado confirma que a potência líder do sistema, fosse ela a Inglaterra, nos séculos XVIII e XIX, ou os EUA, no século XX, foram os Estados que fizeram mais guerras durante toda a história do sistema interestatal que foi inventado pelos europeus, e o número destes conflitos iniciados por estas duas potências líderes aumentou com o tempo e em vez de diminuir na medida em que foi aumentando o poder destas duas grandes duas potências anglo-saxônicas que lideraram o sistema internacional nos últimos 300 anos. (média de 1 guerra a cada 3 ou 4 anos, diretamente ou indiretamente alterando as balanças de poder apoiando um dos lados e dando suporte bélico e/ou técnico).

É por isto mesmo que as grandes potências acabam por ser também as principais “desestabilizadoras” da ordem mundial, sendo que a sua “potência hegemônica” é invariavelmente quem destrói com mais frequência as regras e instituições que ela mesma construiu e tutelou num momento anterior da história.

O sistema mundial é um “universo em expansão” onde todos os Estados que lutam pelo “poder global” estão sempre criando, ao mesmo tempo, ordem e desordem, expansão e crise, paz e guerra. Por essa razão, crises, guerras e derrotas não são o anúncio do “fim” ou do “colapso” da potência derrotada. Pelo contrário, podem ser uma parte essencial e necessária da acumulação de seu poder e riqueza, e anúncio de novas inciativas, guerras e conquistas.

Conclusão

A retirada americana do Oriente Médio e da Ásia Central tem sido vista como fracasso e sinônimo de declínio do império, o que pode ser mesmo, principalmente quando analisado o poder relativo, outras potências nunca estiveram tão próximas dos EUA em relação a poder econômico, militar ou de soft power. Porém, é necessário refletir de forma mais realista o que esse movimento pode significar.

Várias foram as situações em que deram como certo o enfraquecimento do império, Vietnã, Breeton Woods, até mesmo o ataque ao Iraque de forma unilateral sem o apoio dos principais aliados. E, no entanto, décadas depois, o assunto ainda é o mesmo.

A prioridade do momento é conter a expansão da China, diante disso, e à luz da tese de José Luis Fiori, algumas indagações precisam ser feitas:

1 – Realmente a inteligência dos EUA foi tão amadora assim ou o cenário de caos é a forma mais convincente de deixar para o Talibã um arsenal de armas, helicópteros de combate, visão noturna, drones e outros produtos bélicos?

2 – Assim como documentos da embaixada são queimados para não deixar rastros de conversas e vazamentos de informações sigilosas, não teria sido possível ao menos queimar todo esse arsenal?

3 – Um Talibã com tanto poder de fogo não é interessante aos EUA? O Afeganistão faz fronteira direta com dois (Irã e China) dos três grandes problemas de Washington (Irã, Rússia e China). Ainda mais se lembrarmos que o grupo sempre atacou minorias xiitas e tem contatos com separatistas chineses que vivem perto da fronteira.

4 – Desconsiderando armas, quanto mais confuso e conflitante for o Afeganistão maior a crise de refugiados para os vizinhos, ou seja, outra vantagem para os EUA?

5 – A reconfiguração que os EUA tratam há praticamente 10 anos não está sendo implementada em uma velocidade maior do que antes? A saída não faz parte de um plano maior e de longo prazo voltado a esses documentos de Defesa que falam em aumentar o número de soldados e bases no Indo-Pacífico?

Eu particularmente acho mais do que nunca que o sudeste asiático será a próxima fronteira do imperialismo, ou seja, choques étnicos, sociais e religiosos vão surgir aqui e ali, e com isso, novamente veremos um EUA poderoso, ditando regra e conduta para o sistema internacional. Ao menos é o que vão tentar!

As perguntas são infinitas, o ponto central é: o poder é líquido, não estoque, tem poder quem o exerce, poder não é como uma joia rara num museu para exposição, poder é ação!

 

Referências

https://sul21.com.br/opiniao/2021/07/as-estranhas-derrotas-de-uma-potencia-que-nao-para-de-se-expandir-e-acumular-poder-por-jose-luis-fiori/

 

https://ieei.unesp.br/portal/wp-content/uploads/2013/05/Politica-Externa-21-04-Amaury-Porto-Oliveira.pdf

 

https://asia.nikkei.com/Politics/International-relations/Thousands-of-US-troops-will-shift-to-Asia-Pacific-to-guard-against-China

 

 

Dia a dia muito corrido? Ouça todos esses posts enquanto faz suas tarefas:

Quer ainda mais informação com direito a enquete diária sobre o sudeste asiático? Siga o Insta:

Interesse em conversar sobre Relações Internacionais e política local? Bora twitar: