Choques étnicos Indonésia x China: raízes, história e sociedade

Analistas de segurança alertaram nas últimas semanas que o retorno de trabalhadores chineses à Indonésia poderia provocar ataques terroristas por causa do crescente ressentimento de estrangeiros em meio à pandemia de coronavírus, bem como do tratamento relatado por Pequim aos muçulmanos uigur.

Grupos jihadistas fizeram pedidos “massivos” de ataques nas últimas semanas, relatórios de inteligência diziam que tanto os trabalhadores chineses migrantes quanto os indonésios da etnia chinesa poderiam ser alvos.

Duas manifestações foram realizadas no mês passado, incluindo a mais recente na terça-feira, quando mais de 100 trabalhadores chineses chegaram à cidade de Kendari, uma terceira está prevista para essa semana.

O gerente de assuntos externos da empresa que contratou os chineses foi citado pelos manifestantes como o autor da ameaça de acabar com 3.000 empregos locais caso os 500 trabalhadores estrangeiros da China fossem impedidos de entrar. Os manifestantes disseram que não eram contra os trabalhadores, mas questionaram a falta de transparência do governo e das  empresas na contratação dos trabalhadores chineses, uma preocupação ecoada por outros ativistas.

Essa chegada já tinha sido adiada por protestos em abril. A iniciativa por trás da vinda dos trabalhadores estrangeiros faz parte de um esforço para atrair investimentos do exterior do presidente Widodo, o número de trabalhadores estrangeiros no país em 2014 era de 68.762 e saltou para 95.335 em 2018. Segunda o Ministério de Recursos Humanos. Ainda assim, esse total representa menos de 0,1% da força de trabalho do país, de 124 milhões. A China é o segundo maior investidor direto estrangeiro na Indonésia, com empresas chinesas investindo US $ 4,7 bilhões no país no ano passado.

A raiz desse atrito é bem antiga, remete ao Império Holandês, que dividiu a sociedade em 3 partes: os europeus, os “orientais estrangeiros” – árabes, indianos e chineses – e, finalmente, as populações “indígenas” indonésias. E deu permissão aos “orientais estrangeiros” coletarem impostos, colocando os indonésios como raças inferiores. Da repartição aos dias de hoje são de grande notoriedade três eventos.

O massacre da Batávia em 1740

O massacre foi uma perseguição deliberada por soldados das Índias Orientais Holandesas e colaboradores nativos contra residentes chineses étnicos da cidade portuária de Batavia, atual Jacarta. A violência na cidade foi de 9 a 22 de outubro. Historiadores estimam que pelo menos 10.000 chineses étnicos foram massacrados, acredita-se que apenas entre 600 a 3.000 sobreviveram.

O ato foi impulsionado após manifestações da população chinesa contra a repressão do governo e pela queda nos preços do açúcar, o governador-geral declarou que qualquer levante seria enfrentado com força mortal. Em 7 de outubro, dois dias antes do massacre, centenas de chineses étnicos, muitos deles trabalhadores de usinas de açúcar mataram 50 soldados holandeses, levando as tropas coloniais a confiscar todas as armas da população chinesa e a colocá-los sob toque de recolher. No dia 09 correram rumores de atrocidades chinesas contra outros grupos étnicos, o que desencadeou no massacre.

Assassinatos em massa de 1965 a 1966

Os assassinatos em larga escala de 1965 e 1966, que também podem ser chamados de genocídio, ocorreram por vários meses visando membros do partido do Partido Comunista da Indonésia (PKI), simpatizantes comunistas, etnias chineses e outras locais. Começou como um expurgo anticomunista após uma controversa tentativa de golpe de Estado. As estimativas indicam de que 500.000 a mais de um milhão de pessoas foram mortas com algumas estimativas mais recentes chegando de dois a três milhões.
Apesar de um consenso nos níveis mais altos dos governos dos EUA e da Grã-Bretanha de que seria necessário “liquidar Sukarno”, conforme relatado em um memorando da CIA de 1962, ambos países negam envolvimento nos atos.

Os documentos desclassificados dos EUA em 2017 revelaram que o governo tinha conhecimento detalhado dos assassinatos em massa desde o início e apoiava as ações do Exército Indonésio. A cumplicidade nos assassinatos incluía o fornecimento de extensas listas de oficiais da PKI para esquadrões da morte.

Um relatório ultrassecreto da CIA de 1968 afirmou que os massacres “se classificam como um dos piores assassinatos em massa do século XX, juntamente com os expurgos soviéticos da década de 1930, os assassinatos em massa nazistas durante a Segunda Guerra Mundial  e o banho de sangue maoísta do início dos anos 50. O livro Jakarta Method, que já foi dica da semana do Asean News, relata esses assassinatos.

Motins de maio de 1998 

Na década de 1960, o regime de Suharto forçou a etnia chinesa a comprometer-se com a nação, proibiu que fizessem negócios fora das áreas urbanas, proibiu educação e jornais em chinês e forçou que todos usassem nomes “indonésios”. Mas Suharto jogou dos dois lados, enquanto explorava o sentimento anti-chinês, ele também abraçou ricos magnatas chineses do país em seu regime corrupto, que apenas serviu para alimentar o ressentimento de ambos os lados da sociedade. Em 1998, os chineses étnicos representavam apenas 3% da população, mas controlavam 80% do comércio do setor privado da Indonésia.

Quando a crise financeira asiática entrou em erupção, criando de desemprego em massa e escassez de alimentos, a comunidade étnica chinesa foi um bode expiatório fácil. Em um relatório de setembro de 1998, a Human Rights Watch avaliou que dezenas de milhares de chineses étnicos fugiram da Indonésia para Cingapura, Austrália, Hong Kong, Taiwan e outros lugares temendo uma onda da violência. Estima-se que 150.000 chineses étnicos deixaram a Indonésia, com mais de mil mortes no confronto.

Eleições de 2019

Após as eleições em abril de 2019 que deram vitória para o atual presidente Widodo, o perdedor e ex-general Prabowo Subianto rejeitou o resultado e clamou por manifestações que exijam “poder popular”. Em poucas horas e violência eclodiu nas ruas deixando cerca de oito mortos. Coordenadamente, reportagens falsas e boatos na internet começaram a surgir alegando que a “polícia da China havia entrado no país para defender seu povo”.

Nesse ano, a etnia correspondia por cerca de 3 milhões dos 260 milhões de pessoas do país. Os chineses são uma minoria dupla, não apenas são etnicamente diferentes, mas também tendem a ser cristãos ou budistas, o que os diferencia da grande maioria dos indonésios, que são muçulmanos.

Um boato em particular, que continha uma foto de policiais mascarados e de pele clara, afirmou que a China tinha enviado forças de segurança para a Indonésia disfarçados de trabalhadores estrangeiros. “Nunca vimos algo assim antes em volume, gravidade e coordenação”, disse o co-fundador de uma organização local que luta contra notícias falsas.

Atualmente

Ainda hoje há uma percepção de que os indonésios chineses representam um número enorme da elite rica do país, e essa percepção é alimentada por listas dos magnatas mais influentes que sempre demonstram que há um número desproporcional de chineses étnicos. Com o estouro de crises políticas e econômicas, não são apenas as animosidades históricas que voltam à superfície, mas os preconceitos históricos se confundem com um clima político cada vez mais centrado na identidade e na religião.

A maioria dos indonésios trabalha na agricultura, mas o setor contribui com apenas 9,5% do PIB. Tanto a remuneração quanto os níveis de educação tendem a ser baixos. Dados oficiais de 2019 mostram que um em cada quatro trabalhadores não recebeu educação além do ensino fundamental.

De acordo com o Ministério da Mão de Obra da Indonésia, os trabalhadores da China representavam 30% dos trabalhadores estrangeiros no país em 2018, um aumento de cerca de 8.000 trabalhadores em relação ao ano anterior. Muitos desses empregos são de nível médio, posições profissionais que a Indonésia lutaria para preencher usando sua força de trabalho local, mas enfrentam problemas, já que muitos são trabalhadores pouco qualificados.

Uma boa saída para que a Indonésia se beneficie do investimento chinês e tente atenuar essas questões profundas seria fazer como alguns Estados do Golfo e da própria China, por exemplo. Que exigem uma porcentagem de mão de obra local e parcerias com empresas nacionais ao fazer acordos com governos e empresas estrangeiras. Além claro, de uma boa dose de transparência no que tange aos números e prazos de ambos os governos para suas populações.