Build Back Better World, Belt and Road Initiative e o sudeste asiatico

A promessa da China de gastar trilhões de dólares em infraestrutura e fortalecer rotas comerciais globais, suscitou preocupação em muitos países e desencadeou a concepção de planos igualmente ambiciosos para o desenvolvimento de infraestrutura.

Negligenciada por décadas por países desenvolvidos e instituições internacionais de desenvolvimento, a infraestrutura ganhou atenção renovada. Com uma lacuna de cerca de US$ 40 trilhões a infraestrutura global, é uma pauta urgente.

O governo Biden abraçou o Sudeste Asiático como uma pedra angular de sua política do Build Back Better World (B3W), uma tentativa de contrapor a Belt and Road Initiative (BRI) da China. Ficou evidente quando ele participou da Cúpula virtual da Ásia Oriental em outubro de 2021.

O secretário de Estado Antony Blinken, visitou a região em dezembro do ano passado e declarou que “muito do futuro do planeta será no Indo-Pacífico”. Ele passou grande parte de sua visita promovendo o B3W, com ênfase em “liberdade” e “abertura”, como uma alternativa ao BRI da China.

 

Build Back Better World

A iniciativa oficialmente é do G7, mas claro, os EUA que são a grande cabeça e líder do projeto, ela visa construir infraestrutura em países em desenvolvimento sob novos padrões, que foquem também nos Direitos Humanos, democracia, liberdade e meio ambiente e igualdade de gênero.

seu objetivo é catalisar toda essa demanda global por financiamento em infraestrutura e atrair o setor privado desses países para supri-la, esse é o grande diferencial em comparação ao BRI, ainda mais do que as pautas ideológicas que, teoricamente, são condições para que os acordos avancem.

Desde a década de 1990, os Estados Unidos – como muitas outras economias ocidentais – reduziram drasticamente seus investimentos em infraestrutura nos países em desenvolvimento.

 

Bri

O Belt and Road Initiative (BRI) é uma estratégia de desenvolvimento global chinesa que foca em investir em infraestrutura ao redor do mundo e em locais nos quais Pequim veja como estratégica por algum motivo geopolítico ou econômico.

O BRI levanta uma série de questões para as autoridades norte-americanas que criticaram o programa como “diplomacia da armadilha da dívida”. Esse medo parece exagerado já que a maioria dos países que tomam empréstimos da China também toma de doadores ocidentais, bancos multilaterais e detentores de títulos privados. Eles têm fontes diversificadas de financiamento e não há razão para pensar que estão particularmente em dívida com a China.

Um estudo do Banco Mundial em 2019 examinou os projetos de transporte ao longo das rotas terrestres e marítimas e concluiu que havia benefícios potencialmente grandes para os países receptores e para o mundo se os custos de transporte pudessem ser reduzidos por meio de infraestrutura aprimorada.

No entanto, o estudo também descobriu que, em muitos casos, os impedimentos políticos eram maiores do que os impedimentos de infraestrutura, e para reduzir esse tipo de problema que a China cria e ou adere a grandes acordos multilaterais como o RCEP, o CPTPP e tantos outros, esses acordos possibilitam diminuição de burocracias, tarifas e procedimentos.

 

Comparação

Os países em desenvolvimento já têm várias fontes de financiamento, eles preferem usar o financiamento chinês para grandes projetos de transporte e energia por razões específicas. O financiamento privado é muito caro e de curto prazo (geralmente no máximo cinco anos). Os doadores ocidentais e seus bancos multilaterais concedem ou emprestam em termos extraordinariamente generosos.

Mas esses doadores tradicionais preferem financiar serviços sociais, de administração ou promoção da democracia, eles saíram do setor da infraestrutura quase que completamente. No seu nascimento, o Banco Mundial tinha 70% do financiamento em infraestrutura econômica, e agora está em torno de 30%. O que é perfeitamente plausível, o risco do crédito faz toda a diferença quando o setor privado entra na jogada, e é por isso que os grandes investimentos geralmente têm o Estado como grande fiador dos projetos.

Outro problema são as contrapartidas, os países em desenvolvimento têm que seguir os regulamentos do primeiro mundo, e muitas vezes, fazer grandes cortes públicos em setores que afetam a população mais carente pois são vistos como “custos”.  Assim, os países alocam racionalmente a China para o transporte e a energia, os doadores ocidentais para os setores sociais e os detentores de títulos privados para fornecer financiamento orçamentário geral de curto prazo.

Portanto, os EUA e outros países do G-7 geralmente impõem condições que parecem onerosas, que atrasam a implementação do projeto e aumentam os custos. Além disso, ao contrário da China, os Estados Unidos não possuem muita experiência em infraestrutura doméstica. Desde a década de 1950, os EUA gastaram menos de 1% do PIB em seu próprio desenvolvimento de infraestrutura doméstica.

A ferrovia apoiada pelo BRI no Laos demonstra isso com clareza, um dos países mais pobres do mundo possui um trem mais rápido do que qualquer um dos Estados Unidos. A principal vantagem da China na diplomacia de infraestrutura está em seu pacote completo de financiamento de projetos, seguros e construção para nações em desenvolvimento.

 

Pesquisa

Em 2020, Instituto ISEAS-Yusof Ishak, think thank de Cingapura fez uma pesquisa como especialistas do sudeste asiático de diversos setores, para 73% dos 1.308 a região está se tornando um palco para uma grande luta pelo poder e que os membros da ASEAN podem tornar-se “proxies” para um lado ou para o outro. Este número foi acima de 62% na pesquisa do ano anterior.

Outro dado interessante é que quando perguntados para qual lado os países da região deveriam ir caso fossem obrigados, 54% optaram pelos EUA, enquanto 46% preferiram China. Porém, separado por países, a China vence em 7 dos 10 países, com 69% de Brunei, 58% do Camboja, 52% da Indonésia, 74% do Laos, 61% da Malásia, 62% da Mianmar e 52% da Tailândia. Os EUA foram a escolha predominante das Filipinas e do Vietnã com 83% e 86%, respectivamente, seguidos por 61% de Cingapura.

Esses dados mostram que, mesmo com todo o poder de soft power e de boas relações históricas (como no caso das Filipinas e de Cingapura), os EUA perdem cada vez mais apreço na região, e a China com seus inúmeros problemas, também históricos (principalmente com Vietnã e Mianmar) e de questões de soberania marítimas recentes, vem crescendo como prioridade das nações da ASEAN.

 

Conclusão

Em 2020, o comércio da China com o Sudeste Asiático totalizou US$ 685 bilhões , quase o dobro dos Estados Unidos. o governo Biden deve se voltar para outras áreas de envolvimento econômico e diplomático. Um acordo comercial digital EUA-ASEAN para definir regras regionais sobre fluxos de dados transfronteiriços, proteção de privacidade e inteligência artificial por exemplo. Saúde e educação também Washington tem muito mais conhecimento e prática.

O grande problema parece ser empatia, os países ricos não conseguem se colocar no lugar dos países altamente necessitados de questões vistas como básicas e há muito superadas pelo G7. Portos, aeroportos estradas são mais atraentes do que discursos do campo das ideias sobre liberdade, democracia e troca de poder, principalmente se tratando de uma região que tanto sofreu na mão desses mesmos “filósofos”.

Os mesmos que chegam com esses ideais foram os que instauraram à força uma hierarquia social nesses países baseados em raça colocando a população local na base da pirâmide.

E para além de tudo isso, geografia importa, ninguém quer guerra, sequer uma corrida armamentista em seu quintal, e é esse sentimento que começa a aflorar nos governos e populações locais com a repentina mudança de postura dos países ricos em relação a eles, para o bem ou para o mal, a China estará sempre ali do lado.

 

Referências

 

https://thediplomat.com/2022/02/b3w-might-not-be-able-to-compete-with-bri-in-southeast-asia-but-thats-okay/

Seven years into China’s Belt and Road

https://asia.nikkei.com/Politics/International-relations/7-of-10-ASEAN-members-favor-China-over-US-survey

https://www.hinrichfoundation.com/research/wp/us-china/us-china-global-infrastructure-diplomacy/

 

 

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